domingo, 18 de junho de 2017

“Todo mundo sabe que amamos Tupac” / “Everybody knows we love Tupac” *

Acabei de chegar do cinema e eu tive que escrever esse post antes de ir dormir, porque não ia me aguentar. Hoje criei coragem, marquei um encontro comigo mesma e fui assistir All Eyez on me.

Queria ter tido um zilhão de pessoas lá comigo, mas como não tinha, fui sozinha, me controlando pra não cutucar o moço do lado e fazer meus comentários.

Confesso que eu fui pro cinema esperando o pior, não achei que fosse ser um bom filme, achei que ia escrever uma única linha falando pra vcs economizar a grana e assistir online, até porque as críticas são bem ruins por aqui, mas não.
Na verdade o filme me surpreendeu.

Vou tentar não fazer nenhum spoiler, mas vou partilhar alguns sentimentos que o filme me trouxe.
Primeiro o filme reforçou um sentimento que já havia sido despertado em mim quando escrevi minha dissertação de mestrado que é o fato de que as mortes de Big e Tupac são um símbolo do genocídio da juventude negra, o quanto eles nos matam em nossas fases mais produtivas e que quanto mais longe a gente chega mais a gente incomoda.

O filme me lembra também que um MC como Tupac não se faz sozinho. Enquanto tem vários rimadores de meia tigela por aí se achando a ultima bolacha do pacote, o cara só era um dos melhores, se não o melhor rapper de todos os tempos, porque ele teve uma base, sua mãe como pantera negra, lhe ensinou o que era resistência, lhe ensinou a lutar contra o sistema e a reconhecer as ferramentas do sistema. O cara lia jornal desde criança, o cara lia os clássicos, o cara foi fazer teatro, o cara era versátil, não era quadrado. Ele teve uma formação. Era por essas e outras que ele não rimava coração com mão.

Assim como muitos MCs depois dele e muitos de nós que de alguma forma temos visibilidade, Tupac não se via como líder, não queria ser líder e precisou ser lembrado do quão poderoso era o microfone em sua mão. O quanto as ideias propagadas eram muito mais letais do que qualquer arma que ele pudesse carregar e que ele seria uma referência e uma liderança ainda que essa não fosse sua intenção.

O filme me fez pensar também, que mesmo aqueles de nós que já reconhecem as ferramentas do sistema e desenvolvem estratégias pra lutar contra elas, ainda podem se deixar envolver e abater pelas mesmas. Afeni Shakur, se rendendo ao vício e Tupac sendo preso são demonstrações claras disso.

Me faz pensar também na arrogância da juventude, no quanto a gente acha que sabe de tudo, que tem que falar tudo. Mas aí eu lembro que ele tinha só 25 anos e que um jovem de 25 anos conquistou o mundo com sua música e atitude.

No mais a semelhança entre o ator Demetrius Shipp Jr. e Tupac no filme faz com que a gente tenha a sensação de ver Tupac de novo, de que esses 20 anos não se passaram. Me senti em uma versão full screen do Coachella.

O filme me levou a outro tempo, outro lugar, me fez lembrar dos papos sentada na calçada, ouvindo suas musicas e duvidando se ele havia mesmo morrido.

Também não pude deixar de comparar Tupac com Mano Brown, claro que cada um tem seu flow, mas as ideias fortes, o carisma com o público, até mesmo alguns aspectos da história de vida, me fazem ver semelhanças entre os dois.

Achei o filme bom, foi poético, foi intenso assim como Tupac. O tipo de filme que deixa a gente triste, mesmo a gente já sabendo o final. Mas o mais lindo, foi ouvir os irmãos e irmãs no fundo do cinema gritando: isso mesmo, prega mesmo, a cada palavra de resistência que era dita ali.

*O titulo desse post foi retirado de um trecho da música Foi num baile Black de Mano Brown






I just arrived from the movie theater and I had to write this post before I go to bed. I wouldn’t be able to handle myself until tomorrow. So, today, I was brave enough to have a date with myself and decided to go watch All Eyez on me.  I wished I could have several people by my side, but I didn’t have so I went alone, and had to control myself and not poke the guy that was in the next seat to tell him my comments.

I confess that I went to the movies waiting for a terrible movie. I thought I would write one line, telling you guys to save some money and wait to see it on Redbox, especially after I read some bad reviews.
But actually the movie surprised me.

I will try not to post any spoiler here, but I am going to share some of my feelings regarding this movie.

First of all, the movie reinforced a feeling that I carry with me since I wrote my Master’s thesis that Tupac and Big’s deaths are a symbol of the Black genocide, and how they kill us in our more productive age and that how far we go, more we bother them.

The movie also shows that a MC like Tupac doesn’t rely only in his own talent. Considering that nowadays several mediocre MCs think they are the best on it, Tupac only was one of the best, if not the best rapper of all time because he had a foundation. His mother, as a Black Panther taught him, what resistance was, she taught him how to fight against the system and to recognize the tools of the system. The guy used to read the newspaper, the guys used to read the classics, the guy went to study theatre, the guy was versatile, and he was not limited. He had a formation. Those are some of the reasons why he used to rock with his rhymes.

Like many other Mcs after him, and in a certain way many of us who have any kind of visibility, Tupac didn’t see himself as a leader, he didn’t want to be a leader and had to be reminded how powerful the mic in his hands was. How the ideas propagated were more lethal than any other weapon that he could carry and that he was a reference and a leadership even it was not his intention.

The movie also made me think, that even those who know the tools of the system and develop strategies to fight against them, still can be involved and shot by them.  Afeni Shakur with her addiction and Tupac being arrested are demonstrations of this.

It make me think in youth arrogance, in how, when we are young, we think we know everything and we can say everything we want. But then, I remember that he was only 25 and that a 25 years old Black man was able to conquer the world with his music and attitude.

Furthermore, the similarity between Demetrius Shipp Jr, the actor who plays Tupac and Pac himself
make us feel as if we were saying Tupac alive again, as if these 20 years were not gone. I felt as if I were in a full screen version of Coachella.

The movie also took me to other time and place and reminded me of the talks that I had with friends seated in the sidewalk and listening to his songs and guessing if he was really dead.

I also could not stop myself from comparing Tupac with Brazilian rapper Mano Brown, of course each of them has his own flow, but the strong ideas, the charisma with the audience, and even some aspects of their personal life, make me thing about similarities between them.

I thought the movie was good, poetic and intense as Tupac used to be. The same kind of movie that let us sad in the end, even we previously knew what would happen. But the most beautiful thing was to hear the brothers and sisters in the back of the movie theater yelling: “preach bro, yeah preach” after every word of resistance that was said there.


*This post’s title is an excerpt of Mano Brown’ song Foi num baile Black

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