quinta-feira, 20 de março de 2014

Nos matam aos montes / They kill us in mass

Confesso que a escrita desse post é dolorida, por isso relutei ao máximo em escrevê-lo. Mas também pode ter sido covardia, falta de coragem em admitir que tudo isso está realmente acontecendo, como se ao não mencionar deixasse de ser verdade.
Mas não há como negar, não há ausência de escrita que vá fazer deixar de ser verdade o fato de que nossas cabeças estão a premio. Estão nos matando aos montes.
Só nos últimos meses quatro histórias se destacaram na mídia envolvendo corpos negros tratados como nada, como lixo, que pode ser descartado a qualquer momento.
O primeiro choque veio com as correntes nos postes, a tortura na calada da noite, o corpo negro exposto nu, humilhado sem defesa.
Os gritos de justiça a qualquer preço geralmente são acompanhados da negação do racismo, mas não há discurso que apague a imagem do adolescente negro tratado como bicho, sem direito a humanidade, por ter nascido pobre, por ter nascido preto, sem oportunidade.
As críticas a dor que senti (sentimos, pois acredito que você também), vieram imediatamente, afinal estávamos defendendo o marginal, o crime não tinha nada a ver com racismo, mas era a busca por um “meliante”.
O menino sem nome definido pelos jornais apenas como o menor é filho de outro jovem, negro e sem oportunidade que se viu na vida do crime e foi assassinado sem ter tempo de criar o filho. A rua, o crime, o crack foi o que sobrou para o jovem negro torturado nas ruas do Rio de Janeiro.
O vício maldito que faz milhares de vítimas no Brasil (só quem já perdeu alguém para o crack sabe a dor que é), vitimou também um outro jovem, loiro de olhos azuis no sul do país, que também roubava para sustentar seu vício. Esse não foi tratado como “o marginalzinho” pela mídia sensacionalista e com ele ninguém quis fazer justiça com as próprias mãos, ao contrário lhe deram casa, comida, roupa lavada, agência de modelos e clínica de reabilitação, pois ele era lindo demais para ser mendigo e viciado.
Ao contrário do menino negro que era “feio” e merecia ser açoitado aos sons dos clamores pela volta do pelourinho.
“Feio” também era Vinícius Romão, jovem negro, psicólogo, ator, que foi preso sem direito a explicação, por ser confundido com assaltante, afinal era negro e usava black power, porque todos os negros são iguais e usar cabelo black também é sinônimo de bandidagem. Passou 16 dias preso, sem direito a apuração e só foi solto, porque o fato de ter um pouco mais de visibilidade fez com que seu caso ganhasse força e amenizasse a fúria daqueles que já estão acostumados a matar inocentes. Pois afinal, eles nos matam aos montes.
A vítima de roubo que denunciou Vinicius, também é uma mulher negra, que já está tão condicionada a associar sua própria cor ao mal, que em meio ao nervosismo concordou com a ação da polícia, ainda que não tivesse muita certeza que havia sido aquele jovem e não outro que a roubou. É vítima da alienação do mesmo sistema racista que nos mata aos montes, se não pela morte física, mas nos mata emocionalmente.
Temos então o caso da amiga Nina Silva, escritora, administradora de empresas, ativista do movimento negro, que se viu discriminada em uma porta giratória de uma agência bancária, reclamou, foi tratada como alguém que exagera e se viu dentro de um hospital tendo que ser medicada para aplacar a dor emocional que o racismo causa.
Por último, temos o caso de Cláudia da Silva, mulher negra, mãe de quatro filhos, que cometeu o crime grave de ir a padaria comprar pão e carregar um copo de café em suas mãos. Foi baleada a curta distância e arrastada pela viatura por mais de 300 metros agonizando como nem animais mereceriam ser tratados. No sensacionalismo da mídia, Cláudia perde seu nome, virou a mulher arrastada, porque afinal a morte preta não comove mais, porque eles nos matam aos montes.
Quatro casos em pouco mais de um mês, todos seguidos de gritos esbravejados de não foi racismo, vocês veem racismo em tudo, o racista é o próprio negro e todas as outras palavras que quem vive no Brasil já está acostumado, porque afinal todos os dias nos matam aos montes, com palavras, com ações e com o maldito “racismo amigável”, que permite você ser chamado de macaco amigavelmente.
Mas não posso ser injusta, pois não é só no Brasil que nos matam aos montes. Em toda a diáspora a história se repete, já estão acostumados a exterminar corpos pretos.
Se Vinícius passou 16 dias preso sendo inocente, assim como ele tantos outros estão atrás das grades sem terem cometido nenhum crime, ou por delitos menores cuja pena já poderia ter sido cumprida há muito tempo. A história se repete aqui nos EUA, onde após quase 30 anos no corredor da morte, Glenn Ford, conseguiu sua liberdade, pois era inocente da acusação de homicídio pela qual fora preso, assim como havia afirmado em três décadas, mas ninguém deu ouvidos. Agora ele pode voltar pra sua vida. Mas que vida?
O caso de Cláudia com seu copo de café na mão, me lembra outro caso, de Trayvon Martin, que morreu porque carregava um pacote de skittles (balas) e por isso foi considerado suspeito. A sua família coube enterrar o corpo e ver o acusado sair livre e sorrindo.
Que me lembra também de outro jovem, que morreu porque ouvia música suspeita, afinal vendendo milhões ou não, o rap continua sendo música de preto.
É aqui também nos matam aos montes.
O pior de tudo é pensar que esses são apenas alguns casos que ganham visibilidade na mídia, mas que estão longe de serem casos isolados, pois onde quer que seja continuam nos matando aos montes.
Como mostram as centenas de denúncias feitas pela Campanha Reaja ou será morto, Reaja ou será morta, que tem levantado sua voz e exigido uma solução contra o genocídio da população negra, sem recuar.
Só no Brasil, foram 300 mil jovens negros assassinados em dez anos, a maioria pelo braço armado do Estado, que já está acostumado a nos matar aos montes.
E nós que estamos vivos, vamos assim morrendo por dentro, com as dores daqueles que nos são iguais, fazemos parte do “monte” que todo dia é assassinado sem direito a grito e ao clamor contra o racismo. Só me pergunto até quando nos matarão aos montes?






I need to confess that to write this post is really painful and for this reason I postponed to do it. But, I also need to confess that it happened because I’m a coward, I was not brave enough to admit that all these things are really happening, thinking that if I didn’t say it would not be true.
However, I can’t deny anymore, there is no absence of words that is going to make untrue the fact that there is a reward for our head. They are killing us in mass.
Only in these past months four histories were highlighted by the Brazilian media involving black bodies treated as nothing, as trash, that can be disposable any time.
The first shock came with chains in stop signals, the torture in the middle of the night, an exposed naked black body, humiliated without defense.
The cry for justice by any means usually are followed by a denying of racism, but there is no speech that can erase the image of the black teenager treated as an animal, without right to his humanity, only because he was born black and poor without opportunities.
The critics to the pain that I felt (we felt, because I believe that you felt too), came immediately, because we were defending a thief, and the crime wasn’t racism, but it was a search for “criminal”.
The nameless boy defined by the newspapers only as a minor is the son of another young black man without opportunities who were involved in the criminal life, who was murdered and didn’t have time to raise his kid. The streets, the crime, the crack was the legacy that the young black boy tortured in the Rio de Janeiro streets received.
The damned crack addiction make several victims in Brazil (only someone who lost someone to the drug knows how painful it is), it victimized another young man in Brazil: blond, blue eyes, in the south of the country, who also used to be a pickpocket to support his addiction. This one was not called by the sensationalist media as a “criminal”, nobody requested justice by any means, unlike they gave him a home, food, clean clothes, a modeling agency and rehab, because he was to handsome to be homeless and addict.
Unlike the black boy who was “ugly” and deserved being whipped under the sounds of the cry to bring back the public whip.
Who was also “ugly” was Vinicius Romão, young black man, psychologist, actor who was arrested without right to defend himself, when he was misunderstood as a robber, because he was black and had an afro hair, because all black people are equal and having an afro hair is a synonymous of criminality. He was in prison for 16 days, without rights for investigation and only was released because his visibility made his case stronger and it diminish the furor of those who are habituate to kill innocent people. Because, as usual they are killing us in mass.
The victim who accused Vinicius, is also a black woman, who is probably so conditioned to associate her own color with the evil, that in a nervous situation agreed with the Police action, even if she wasn’t sure that he was the man who stole her. She is also a victim of the alienation of the same racist system which is killing us in mass, not only through the physical death, but are also killing us emotionally.
In the same way, we have the case of my friend Nina Silva, writer, business woman, activist in the Black Political Movement, who suffered racism in a bank door and was treated as someone that is exaggerating and saw herself inside a hospital, receiving medication to relief the emotional pain caused by the racism.
At least, we have the case of Claudia da Silva, black woman, mother of four children, who committed the terrible crime of going to the bakery by bread carrying a glass of coffee. She was shoot in a short distance and dragged by the Police car for more than a quarter mile, dying as not even an animal should be treated.  In the sensationalist media, Claudia lost her name, became the dragged woman, because the black death isn’t able to cause emotion anymore, because they are killing us in mass.
Four cases in a little bit more than one month, they were all followed by people screaming that “these weren’t racism”, and “you see racism everywhere”, “the black person is the racist one” and all the other sentences that all those who live in Brazil are habituate to hear, because as I said they are killing us in mass, with words, with actions and with the damn “friendly racism”, which allows calling you a jigaboo in a “friendly” way.
But I can’t be unfair, because is not only in Brazil that they are killing us in mass. In the whole Diaspora the history is repeating, they are habituate to exterminate black bodies.
If Vinicius spent 16 days arrested being innocent, like him several other people are in prison without commit any crime or because they did minimal crimes for those they could be free a long time ago. The history is the same here in the US, where after almost 30 years with a death sentence, he was released, because he was innocent of the homicide accusation, as he was affirming during these past three decades, but nobody listened him. Now he can goes back to his life. But which life?
The case of Claudia with her cup of coffee on her hands, reminds me another case, of Trayvon Martin, who was murdered because was carrying a Skittles pack and for this reason was considered suspect. To his family the legacy was burry his body and see the assassin being freed with a smile on his face.
It also reminds me another case of a black boy who was murdered because he was listen a suspect music, because no matter if it sells millions or not, rap is still a black music.
Yes, here they also are killing us in mass.
The worst thing is to think that these are only few cases that got some media visibility, but that they are far from being isolated cases, because no matter where we are they are still killing us in mass.
As has been showed by the several denounces made by the campaign Reaja ou sera morto, Reaja ou sera morta (React or you will be dead), which has been raising their voice and asked a solution against the black genocide in Brazil, without turn back.
Only in Brazil, we had more than 300 thousand black youth murdered in these past 10 years, most of them by the armed wing of the State, which is already habituate to kill us in mass.
Us who are still alive, we are dying inside, feeling the pain of those who look like us, we are part of this “pack” that is murdered every day without the right to scream or to cry against racism. I only wonder  how long are they going to kill us in mass?

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Sobre ser uma mulher negra brasileira vivendo no exterior / About to be an Afro Brazilian woman living abroad


O processo de escrita desse post tem sido longo. Por várias vezes já pensei em começar, mas me sinto tão sensibilizada com o tema, que vejo o quanto isso pode prejudicar a escrita e simplesmente paro.
A primeira vez que vim aos Estados Unidos, tive a oportunidade de morar por dois meses em Atlanta no estado da Georgia. A experiência foi tão profunda para mim que cada etapa do que vivi era visto como algo mágico. Entre esses, também era novo para mim o fato de ser considerada uma mulher bonita pelos homens negros aqui, coisa que não acontecia com frequência no Brasil.
Naquele período de dois meses, aprendi que a palavra bonita tinha uma outra conotação quando ela vinha acompanhada da frase “ah você é do Brasil?”. Era fácil perceber que o que estava em jogo não era apenas o fato de ser bonita ou não, mas era antes de tudo o fato de ser brasileira que significava alguma coisa. 
Sempre tinha ouvido falar sobre o estigma da hipersexualidade da mulher brasileira no exterior, que essa era vista como uma mulher fácil, ou ao até mesmo como uma prostituta, mas sempre achei que isso era uma generalização e não um fato concreto. 
Com o passar dos anos, eu que sempre tive amizade com americanos negros, nunca pensei nesse tema como uma possibilidade, considerando-se que com meus amigos, sempre tive uma relação de respeito e igualdade independente de suas nacionalidades.
E essas relações foram cada vez mais me aproximando do conceito de diáspora e a tentar pensar na luta negra de forma coletiva onde negros de todo mundo devem estar unidos na luta contra o racismo.
Nesse período comecei a ter mais contato com a comunidade negra americana por conta do meu trabalho e cheguei a ser abordada por alguns homens negros americanos de forma indevida, mas sempre vi como fatos isolados, pois acredito que falta de caráter independe de nacionalidade.
Preciso dizer que esse pensamento não mudou, continuo encontrando pessoas maravilhosas no meu caminho e fazendo ótimos amigos aqui.
Contudo é preciso dizer que desde que passei a viver nesse país, alguns fatos chegaram ao meu conhecimento, tornaram as coisas mais claras e me deixaram realmente entristecidas.
O primeiro fato foi um comentário de um estranho sobre homens afro-americanos irem ao Brasil a procura de prostitutas, pois isso facilitaria o relacionamento apesar da barreira da língua. O segundo fato foi a observação de comportamentos indevidos de alguns homens negros americanos no Brasil, que tratavam mulheres como um corpo disponível, como pessoas que estariam ali apenas esperando por eles. Por último, tive acesso a um video que circula livremente pelo youtube onde homens afro americanos dizem procurar mulheres brasileiras, pois essas seriam submissas, não estariam preocupadas com status ou posição social e não teriam um alto nível de educação.
O vídeo me chocou por diversas razões:
A primeira pelo fato de que todas as mulheres no video eram negras.
A segunda pelo fato de que a maioria das mulheres no vídeo visivelmente faziam parte de uma rede de prostituição e as pessoas de forma indiretas mencionavam turismo sexual.
A terceira pelo fato de que o video em todo o momento criava uma tensão entre as mulheres negras brasileiras e as mulheres negras americanas, onde essas estariam sendo preteridas pelas primeiras.
A perspectiva apontada pelo vídeo me fez sentir realmente mal, comecei a lembrar de diversos fatos isolados não apenas que aconteceram comigo, mas também histórias de pessoas conhecidas que tinham exatamente essa perspectiva: mulheres negras brasileiras sendo tratadas como seres de segunda classe por aqui.
Comecei a lembrar que geralmente os comentários sobre a mulher negra brasileira ser bonita, vinham acompanhados sobre comentários de como esses homens gostariam de ir ao Brasil e se divertir muito, mas nunca acompanhado de um pensamento de encontrar uma mulher negra brasileira para um relacionamento verdadeiro, esses são reservados para boas mulheres americanas.
A tristeza só aumenta quando penso que isso é o reflexo de nossos corpos sendo vendidos como produto desde a escravidão, afinal no Brasil a branca sempre foi para casar, a “mulata” para foder e a preta para trabalhar.
Como mulheres Afro Brasileiras sejamos nós de pele escura ou clara, nos tornamos ao longo dos anos a mulata exportação, o símbolo da sexualidade de um país, uma bunda ambulante que está disponível, aquela que merece ser desfrutada, mas que nunca se tornará a senhora.
Enfim, o Brasil que foi tão hábil em mascarar seu racismo com o passar dos anos, também foi esperto o bastante para nos vender como seu melhor produto, que atrai milhares de “clientes”.
Mas se o Brasil vende um produto, existe por outro lado um país que está comprando essa imagem, que está acreditando que a mulher negra brasileira é realmente a grande prostituta que se diz. E isso realmente me entristece. Me entristece, pois eu conheço e tenho estudado cada vez mais a luta das mulheres afro-americanas para fugir de estereótipos como esses. Então porque acreditar quando isso é associado a irmãs de outros países?
Não há como falar em diáspora, sem pensar em união, sem pensar em partilha de dores e experiências na luta contra o racismo e pensar que eu posso ser observada como alguém que não é boa o bastante realmente me faz pensar se estamos em uma luta coletiva.
É claro que não posso generalizar, como eu mencionei antes minhas relações pessoais dentro da comunidade sempre foram maravilhosas e acredito que assim como meus amigos existam outras pessoas que também estão abertas a conhecer e respeitar a cultura do outro e seguir em uma luta conjunta.
Prefiro pensar que na maioria dos casos o que acontece é uma falta de conhecimento sobre a cultura brasileira ou sobre o que realmente acontece no Brasil.
Por isso resolvi responder em poucas palavras algumas das questões levantadas no video Frustrated: Black American Men In Brazil.
Sobre a sexualidade da mulher negra brasileira: Não há como generalizar, em um país com mais de 50 milhões de mulheres negras, cada uma irá lidar com sua sexualidade de maneira pessoal. Conheço mulheres negras que são sexualmente mais liberadas, como conheço outras que são virgens, não existe um padrão para a sexualidade da mulher negra em meu país. Também não acredito que tenhamos uma sexualidade mais aflorada que outras mulheres no mundo, acredito que isso é muito mais um conceito vendido do que uma verdade. A única certeza que tenho é: NÃO SOMOS UM CORPO A DISPOSIÇÃO, ir ao nosso país não significa sexo fácil, apenas porque somos brasileiras e isso é fato.
Sobre mulheres negras brasileiras serem submissas: Entendendo o machismo em meu país, acredito que muitas mulheres no Brasil ainda são subjugadas por homens, mas assim como sexismo existe em todos os lugares, a luta do feminismo negro também existe e nós temos nos levantados contra todo o tipo de opressão de gênero e raça. Temos um histórico de luta e protagonismo em nosso país, mulheres negras desde sempre foram responsáveis pela manutenção da família, como matriarcas que eram e também pelo pioneirismo político em diversas situações. NUNCA ESTIVEMOS NOS BASTIDORES.
Sobre prostituição no Brasil: Existe prostituição no Brasil como existe em qualquer lugar, na verdade o Brasil ainda é um país bem retrogrado nesse sentido, pois é um dos países no mundo, onde prostituição ainda é ilegal e considerada crime. E NÃO, NÃO SÃO TODAS AS MULHERES NEGRAS BRASILEIRAS QUE SÃO PROSTITUTAS OU QUE VÃO TROCAR SEXO POR FAVORES.
Sobre mulheres negras brasileiras serem melhores que mulheres negras americanas: Não acredito que possa ao menos existir essa comparação, politicamente falando mulheres negras nos dois países tem partilhado uma história de luta e militância e aprendido muito umas com as outras. Fisicamente falando, acredito que na verdade somos muito mais parecidas do que nunca, afinal vejo diversas pessoas aqui que se parecem comigo, com minhas amigas, com minhas irmãs. Emocionalmente, temos um histórico diferenciado, apesar de sofrermos com a opressão do racismo, mas acredito sinceramente que nenhuma de nós tem tempo ou vontade de ser o capacho de homem algum . Sexualmente falando, acredito que a questão da sexualidade tem que ser tratada como o que é, algo pessoal que compete apenas aos envolvidos. É mais do que hora de quebrarmos os estereótipos que foram criados sobre nós.
Bom, o post foi longo, mas espero ter sido claro e que ajude para que possamos continuar construindo relações fraternas na luta contra o racismo. Todos são bem vindos no Brasil, mas é preciso derrubar imagens que não são verdadeiras.
Deixo com vocês um link para o video Frustrated: Black American Men In Brazil. E convoco a todas mulheres negras brasileiras e americanas para se unir e dar uma resposta  a altura para algo tão preconceituoso e machista.
http://www.youtube.com/watch?v=BOjvPOBvd9A

The process to write this post has been taking a time. Several times I thought about to start, but I feel so sensitive about the subject, and I see how this can worry the writing so I stop.
The first time that I came to the US, I had the opportunity of living during two months in Atlanta-GA. It was a so deep experience that for me each step that I took was seeing as something magic. Among these experiences was also new for me the fact that here I was considered pretty by Black men, what didn’t happen often in Brazil.
During those two months, I learned that the word beautiful had another connotation when it was followed by the sentence “oh are you from Brazil?”. It was easy to realize that what was on the table wasn’t only the fact of being beauty of not, but before this was the fact that to be Brazilian meant something else. 
I always hard about the stigma of the Brazilian women hyper sexuality abroad, the fact that she was seeing as a promiscuous woman, or even as a prostitute, but I always thought it was a generalization and not a real fact.
Over the years, as a person that always had African American friends, I never saw it as a possibility, considering that with my friends I always had respectful and equal relationships independent of where they were from.
These relationships were responsible for approached me of the concept of Diaspora and made me start to thing in the black struggle in a collective way where black people around the world need to be united in the fight against racism.
On this period, I started to have more contact with the African American community because of my work and sometimes I was approached by some African American men in a malicious way, but I always saw it as isolated facts, because I believe that a bad character is a thing that isn’t related with nationality.
I need to say that this thought didn’t change, I still meet wonderful people on my way and I’m still making amazing friends here.
However, I need to say that since I came to live in this country, I start to know some facts, some things became clear and it made me really sad.
The first fact was a commentary made by a strange who told me about African American men who go to Brazil to find prostitutes, because it would make the relationship easier considering the language barrier. The second fact was the observation of a bad behavior of some African American men in Brazil, who were treating women as available body, as people who were there only waiting for them. At least, I had access to a video that is published on youtube, where African American men affirm to look for Afro Brazilian women, because they supposedly were submissive, they wouldn’t be worry about status or social position and they would not be educated.
This video shocked me for several reasons:
Fist,  because all the women on it were black.
Second, by the fact that most of those women were clearly part of a prostitution networking and because indirectly in the video people were mentioning sexual tourism.
Third, the fact that during the video all the moment it was bringing a tension between Afro Brazilian women and African American women, as if those were deprecated by the first ones.
The perspective highlighted by the video made me feel really bad, I started to remember several isolated facts that have happened not only with me, but also histories of people that I know that had exactly this perspective: Afro Brazilian women being treated as second class people here.
I started to remember that usually the comments about the beauty of the Afro Brazilian women, were followed by comments about how these men would like to go to Brazil and have a lot fun, but never was a comment followed by the thought that they could go to Brazil and find a woman to have real relationship, because these are reserved for good American women.
My sadness becomes deeper when I think that this is the reflex of our body being sold as a product since the slavery, because in Brazil, the white woman was to get marry, the “mulatta” to fuck and the black to work.
As Afro Brazilian women no matter if we are light or dark skin we became over the years the “mulatta” for exportation, a symbol of the sexuality of a country, a walking as who is available, the one who deserves to be enjoyable, but who never will become a Mrs.
So, Brazil who was so able in to hide its racism over the years, was also smart enough to sell us as its best product, which can attract millions of “clients”.
However, if Brazil is selling a product, there is on the other hand a country that is buying this image, that is believing that the Afro Brazilian woman is really the great whore that everybody says. And this makes me really sad. It makes me sad because I know and have been learning each day more, about the fight of African American women to escape from stereotypes like these. So why to believe on it when this image is related with sisters from other countries?
There isn’t a way to talk about Diaspora, without to think about union, about share pain and experiences in the struggle against racism and to think that I can be observed as someone that isn’t good enough really makes me think if we are in a collective struggle.
Of course I can’t generalize, as I mentioned before my personal relationships inside the black community here were always wonderful and I believe that as my friends there are other people who are also open mind and are available to know and to respect the culture of their neighbor and to follow in a collective struggle.
I prefer to think that in most of cases what happens is a lack of knowledge about the Brazilian culture or about what really happens in Brazil.
For this reason I decided to answer in few words some of the questions which were approached on the video Frustrated: Black American Men In Brazil.
About the sexuality of the Afro Brazilian Woman: There isn’t a way to generalize it, in a country with more than 50 million Black women, each one of them is going to deal with their sexuality in a personal way. I know Black women in my country who are more sexually open in the same way that I Know other who are virgins; there isn’t a standard for the sexuality of the Black woman in my country. I also don’t believe that we are hyper sexual or are more sensitive for sex than other women in the world, I really believe it is more a sold concept than the truth. The only certainty that I have is: WE AREN’T AN AVAILABLE BODY and to go to our country doesn’t mean easy sex, only because we are Brazilians.
About Afro Brazilian women being submissive: I understand the machismo in my country, and I believe that several women in Brazil are still subjugated by men, but in the same way that sexism is everywhere, the struggle of the Black feminism also exist everywhere and we have been standing against all kinds of oppression of gender and race. We have a history of role in our country, Black women who since always have been responsible for support their family, as matriarchs and also by the political pioneering in different situations. WE NEVER WERE ON THE BACK STAGE.
About prostitution in Brazil: There is prostitution in Brazil as if there is prostitution everywhere. Actually Brazil is still a conservative country in this sense, because it is one of the few countries in the world, where prostitution is illegal and considered a crime. AND NO, NOT ALL BLACK BRAZILIAN WOMEN ARE PROSTITUTES OR ARE GOING TO CHANGE SEX FOR FAVORS.
About Afro Brazilian women being better than African American women: I don’t believe this comparison can even exist, in a political sense black women in both countries has been sharing a history of fight and activism and learning a lot with each other. Physically, I believe that actually we are really similar to each other, because here I see several people who look like myself, my friends, my sisters. Emotionally, we have different history, although we both suffer with the racism oppression, but I really believe that none of us has time or wish to be a doormat for a man. Sexually, I believe that this question needs to be treated as it is, something personal, that compete only to people who are involved on it. It is more than time to break the stereotypes which were created about us.
Well the post was long, but I hope it is clear and can help us to follow constructing friendly relationships in the fight against racism. Everybody is welcome in Brazil, but it is necessary to knock down some images which aren’t real.
I let here the link for the video Frustrated: Black American Men In Brazil. And I call all Afro Brazilians and African American women to join me and give a right answer to something so sexista and full of prejudice.
http://www.youtube.com/watch?v=BOjvPOBvd9A

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O som da diáspora - The sound of the Diaspora

É com grande alegria que eu partilho aqui o link para a minha dissertação de mestrado: O som da diáspora - A influência da Black music norte-americana na cena Black paulistana.
Espero que vocês gostem pois é uma parte muito importante de mim.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100135/tde-18072013-182513/pt-br.php

I'm really happy in to share with you the link for my Masters Thesis: The sound of the diáspora - The influence of American Black in the Black scene of São Paulo.
I hope you enjoy because it is an important part of me.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100135/tde-18072013-182513/pt-br.php

terça-feira, 22 de outubro de 2013

E no final do dia apenas uma mulher negra / And in the end of the day just a Black woman

Esse é um post que vem sendo construído aos poucos, em meio a necessidade me adaptar a minha nova vida e a nova realidade na universidade, algumas coisas começaram a me fazer refletir.
Um dos principais temas presentes na mídia desde que cheguei aqui tem sido o comportamento da cantora Miley Cyrus, que tem tentado de algumas maneiras romper com a imagem de eterna estrela Disney que tinha ao interpretar Hannah Montana, se comportando de maneira a mostrar sua liberdade proclamando sua sexualidade e seu direito em se comportar como tem vontade, ou seja da velha maneira que muitas estrelas Disney antes dela já fizeram com muito sexo, drogas e rock and roll ou seja lá  o que for que ela canta.
Nada contra a necessidade de autoafirmação da cantora, embora ache essa crise de adolescência pública um pouco démodé, também não tenho nada contra o fato de ela expressar sua sexualidade e liberdade como desejar, mas o que tem me incomodado é como ao criticar o comportamento de Miley Cyrus, por considerar suas “atitudes excessivas”, a mídia aqui faz questão de mencionar que ela está fazendo tudo isso porque quer se passar por negra.
Isso mesmo, o seu comportamento considerado exagerado, excessivo, considerado até mesmo obsceno se daria, segundo essas críticas porque ela quer se passar por uma mulher negra.
Essa afirmação me impressionou porque mesmo eu sendo negra minha vida inteira e tendo vivido experiências diversas, eu nunca fiz nada do que ela supostamente tem feito. Além disso, conheço diversas mulheres negras sejam na minha família ou entre as minhas amigas que nunca chegaram nem perto disso. Então porque essa comparação?
Na mesma época, comecei a ver matérias relacionadas com a ida da cantora Beyonce ao Brasil, durante os preparativos para o tão esperado show, todas as matérias publicadas pela versão brasileira de sites como o yahoo e o msn tratavam de trazer matérias negativas sobre a cantora, com títulos como os maiores micos de Beyonce e traziam cenas como seu cabelo ficando preso no ventilador e tombos dela no palco. Mesmo ela sendo uma das maiores cantoras do mundo, não mereceu palavras positivas por parte desses sites, para eles era melhor retratar seu fracasso.
Mas o que mais me marcou durante essas reportagens foi uma imagem durante um de seus shows ao redor do mundo quando um fã decidiu dar um tapa na bunda dela enquanto ela dançava em cima do palco. Mesmo que ela tenha chamado a atenção do fã dizendo que ele seria retirado do show se fizesse aquilo novamente, aquela imagem foi extremamente agressiva aos meus olhos.
Mas você pode estar se perguntando, como a natureza rebelde de Miley Cyrus e o tratamento destinado a Beyonce estão relacionados?
Eles estão relacionados exatamente porque o racismo e o machismo presentes em nossa sociedade fazem com que a imagem da mulher negra seja perpetuada como a de um corpo a disposição, alguém que está ali, disponível para o toque e pronta para o sexo a qualquer momento.
Miley Cyrus, pode até ser considerada degenerada pela opinião pública, mas como uma mulher branca “jamais se comportaria desse jeito”, na mentalidade doentia do racismo e do machismo, ela só pode estar desejando ser negra para se comportar dessa maneira.
Já Beyonce, pode até se comportar como uma diva, pode ter o sucesso de uma mulher poderosa, mas não é possível admitir os seus sucessos, é preciso reforçar os seus fracassos e trata-la como aquilo que ela é: apenas uma mulher negra.
Essa relação entre hiper sexualidade e a imagem da mulher negra faz parte (segundo o que tenho aprendido aqui por meio do pensamento de autoras como Patrícia Hill Collins), da formação de imagens controladas das mulheres negras que são divulgadas como ferramentas que ajudam a manter um sistema opressor e excludente que faz das mulheres negras suas maiores vítimas.
É isso que faz não apenas Beyoncé, mas também, você, eu, ou suas irmãs e mães serem vistas como alguém a disposição, como uma mulher que pode ser explorada emocionalmente e fisicamente, como uma bunda gigante que pode levar um tapinha em público, afinal “a gente pede por isso”.
Miley Cyrus, caso decida mudar seu comportamento, será novamente acolhida no seio da boa família, ocupará novamente seu lugar na casa grande, pois terá deixado de tentar agir como negra. Já Beyoncé, você e eu não importa como nos comportemos terminamos apenas como o que somos: No final do dia somos apenas mulheres negras.


This is a post that I have been constructing piece by piece. In the middle of my necessity to adapt to my new life and new reality at the university, I started to think about some things.
One of the main subjects on media since I arrived here has been the behavior of the singer Miley Cyrus, who has been in different ways to break up with the image of an eternal Disney star that she used to have while she was performance Hannah Montana, behaving in a way that intents to show her freedom, proclaiming her sexuality and her right in do what she wants to do, what means in the same old way that several Disney stars before that had done before, with a lot of sex, drugs, rock and roll or whatever she sings.
I don’t have anything against her necessity of self- affirmation, even if in my opinion this teenager drama queen is a little bit démodé, I also won’t positioning myself against her right to express her sexuality and freedom and the ways how she wishes to do that. However, what have been bothering me in all this history is the way how to criticize Miley Cyrus’ behavior for her “excessive attitudes” the media is highlighting the fact that she is doing everything because she wants to pass by a Black woman.
Exactly, her behavior which has been considered exaggerate, excessive, considered even obscene would be, according with these critiques because she wants to perform a Black woman.
This affirmation impressed me because even if I have been black my whole life and even I had different life experiences I never did anything related with those things that she supposedly has been done. Although, I also know several Black women, on my family or between my friends that not even really come close to that. So why are they doing this comparison?
At the same time, I started to see several news related with Beyonce’s trip to Brazil, and during the preparation for this awaited show, all the articles published by the Brazilian version of sites like yahoo.com and msn.com were highlighting negative images of the singer, with titles talking about her failures and images as those about her hair grabbing in the ventilator and other images of she falling on the stage. Even if she is one of the greatest singers in the world, she didn’t deserve any positive word from these sites, for them the best thing was to talk about her failure.
However, in the middle of all these news, the image that really shocked me and marked me, it was a scene during one of her shows around the world, when a fan decided to spank her ass while she was dancing on the stage. Even if she was angry whit the fan telling him that he would be removed from the concert if he did that again, that image was extremely aggressive to my eyes.
But you can be wondering: how are the rebel acts of Miley Cyrus and the treatment that was given to Beyonce related?
This is exactly the point. They are related because the racism and the sexism that exist in our society make possible to perpetuate the image of a Black woman as an available body, someone that is over there, available for the touch and ready to have sex in any moment.
Miley Cyrus, can be considered degenerated by the public opinion, but as a white woman, she “never would behavior like this”, so in the sick mentality of the racist and sexist society, she only can be wishing to be Black to behavior herself in this way.
On the other hand, even if Beyconce, can behavior herself as a Diva, and be successful as a powerful woman, people can’t admit her success, it is necessary to reinforce her failure and treat her as that that she really is: only a Black woman.
This relationship between hyper sexuality and the Black woman image is part (according with I have been learning through the thought of writers as Patricia Hill Collins), of the creation of controlled images of Black women which are spread as tools to keep an oppressor and exclusionary system, which make Black women are it main victims.
And this is what makes not only Beyoncé, but also you, and me, or your sisters and your mothers be seen as someone available, as a woman that can be explored emotionally and physically, as a big ass that can be spanked in public, because in the end “we are asking for that”.
Miley Cyrus, in the case that she would decide to change her behavior, she will be again well received in the arms of the good family, she will occupy her place in the Master’s house, because she would stop to try to act as Black. Now, Beyoncé, you and me no matter how we decide to behavior, in the end of the day we finish as that we are: In the end of the day we are only Black women.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Uma diáspora de dores – A Diaspora of pain

A escrita desse post começou há mais de um mês, no dia em que recebi a notícia de que George Zimmerman havia sido inocentado da morte de Trayvon Martin. Naquele mesmo dia, li uma outra notícia de um jovem negro que havia sido torturado por horas no Paraná, por ter sido “confundido” com um assaltante.
As duas histórias não saíram da minha cabeça e me fizeram mais uma vez pensar em como nossas dores e aflições são parecidas apesar de diferentes realidades.
Na mesma época as questões diaspóricas fluíam na minha vida sob diferentes perspectivas, pois ao mesmo tempo em que terminava meu mestrado fui convidada para fazer uma palestra na ONU e a falar sobre racismo e xenofobia no Brasil e na América Latina, comparando como em diferentes lugares da diáspora essas questões sempre afligem a população negra.
E naquele momento escrever sobre isso realmente parecia o melhor tema.
Por diversas razões, o processo de escrita não fluiu, as coisas começaram a ficar corridas e a preparação para essa palestra e para a mudança acabaram fazendo com que eu adiasse a escrita.
Mas esse é um novo tempo.
Para quem não sabe, no início do mês de agosto eu me mudei para Austin, Texas, onde irei iniciar meu doutorado em Estudos Africanos e da Diáspora Africana pela University of Texas. E ao chegar aqui e passar a observar a questão racial nesse país com um olhar de fora, a necessidade desse post voltou a surgir.
O que me fez pensar nisso, é ver o quão parecidas são nossas dores na diáspora, o quanto sofremos as mesmas agressões, mas o quão diferente são nossas reações a estas.
Na última semana, jovens ativistas negros no Brasil saíram as ruas para protestar contra a morte em massa de jovens negros, devido a diferentes formas de violência, em especial aquela praticada pelo Estado.
No último sábado, aqui nos Estados Unidos milhares de pessoas se reuniram em Washington DC, para comemorar os 50 anos do discurso de Martin Luther King, I have a dream e uma das principais causas levantadas durante o evento foi a morte de Trayvon Martin.
Dois eventos semelhantes, infelizmente com realidades tão diferentes. No Brasil país onde 51% da população é negra, as marchas conseguiram reunir apenas algumas centenas de pessoas. Enquanto que nos Estados Unidos, país onde a população negra representa 13%, a marcha reuniu aproximadamente 100 mil pessoas.
Em um primeiro momento isso pode parecer uma questão simples, de falta de comprometimento ou podemos generalizar e dizer que as coisas aqui foram no passado e são até hoje diferentes de lá, mas a questão é muito mais profunda do que isso.
Essa é uma questão intrínseca que envolve temas como a maneira como a colonização se deu nos dois países e o que tem sido chamado de segregação de fato e de direito e outros temas que merecem ser aprofundados em outra postagem.
De diversas maneiras, são essas diferenças, na maneira como a conscientização de nosso povo acontece que faz com que ao andar nas ruas aqui, eu possa observar um senso de irmandade que nunca presenciei no Brasil, apesar de já ser uma ativista há mais de 15 anos.
Um senso de irmandade que faz as pessoas se cumprimentarem nas ruas ainda que não se conheçam, comentarem as últimas notícias relacionadas a população negra, que faz os pastores usarem a luta contra o racismo em seus sermões, que faz com que o motorista do ônibus ou o atendente da farmácia, comecem a falar sobre movimento black power e partido black panthers, apenas por ver meu cabelo natural.
Não quero pensar que esse senso de irmandade não exista no Brasil, mas acredito que ainda está em construção, onde tentamos primeiro descobrir quem somos, para depois tentar unir o que somos individualmente ao que somos como coletivo e isso leva tempo.
Mas então, porque não unir nossas dores? Essas são mais fáceis e mais palpáveis do que a conscientização. A dor do povo preto está aí, estampada há mais de 500 anos, em toda a diáspora e seja aqui nos Estados Unidos ou seja no Brasil, a carne mais barata do mercado ainda é a carne preta, o corpo mais vulnerável e a disposição ainda é o nosso, então talvez possamos partir daí.
Se unirmos nossas dores e aprendermos com as experiências um dos outros talvez possamos encontrar um caminho em comum a seguir que torne nossa jornada mais fácil e nossa vida na diáspora menos dolorosa.
Eu ainda não sei qual é esse caminho, nem acredito que haja uma receita, mas de todo meu coração, procuro ver essa união como uma ponta de esperança na luta contra o racismo.
O que tenho aprendido nesses poucos dias aqui é que não existe racismo pior nem melhor, o que existe é a necessidade de lutar contra esse mal que fere e mata, seja aqui ou seja lá.
Vamos lutar!

I started to write this post around one month ago, in the day that I received the new that George Zimmerman was considered innocent  of Trayvon Martin’s death. At that same day, I read another new about a black youth who was tortured for several hours in the state of Parana, because he was mistaken for a robber.
Both histories weren’t out of my head and they made me wonder how similar are our pain and our afflictions even considering our different realities.
At the same time the diasporic issues flowed in my life under different perspectives, because at the same time that I was finishing my Master course I was invited to speech at United Nations headquarter about racism and xenophobia in Brazil and Latino America, doing a comparison about how even in different places of the diaspora black people are still afflicted by these questions.
And at that moment to write about this sounded as the best subject.
For several reasons, the process to write didn’t happen, and things started to be hard, and with the preparation for the lecture and to moving, I just postponed the writing.
But this is a new time.
For all those who don’t know, at early august I just moved into Austin, Tx, where I’m starting my PHD in African and African Diaspora Studies, by University of Texas and when I arrived here I could start to observe the racial issues in this country, and with a foreign perception the necessity of this post upraised.
What made me think about this was because I realized how similar are our pain in the Diaspora, how we have been suffering to the same kind of aggression, but how different are our reaction to that.
In the past week, some Afro Brazilian young activists went to streets to protest against the massive murdered of black youth, through several violence forms, especially that committed by the State.
Last Saturday, here in the US thousands of people met in Washington DC, to celebrate the 50th anniversary of Dr. King I have a Dream speech and one of the main issues that was approached by the leaders during the event was Trayvon Martin’s death.
Two similar events unfortunately with so different realities, in Brazil, a country with 51% of black population, the marches got to put together only some hundred people. While in the US where the black population represents only 13% the march got around one hundred thousand people.
In a first moment, this can sounds as a simple question, meaning that in Brazil people aren’t committed with the cause or we can generalize and say that things here were in the past and still are totally different from there, however this issue is really deeper than this.
This is an intrinsically question that involves subjects as colonization in both countries, and what we call segregation in fact and in law and other subjects that deserve a deeper look in another post. 
In several ways, these differences in the way that our people awareness happens is what made possible that when I’m walking on streets here, I can observe a brotherhood feeling, that I never felt in Brazil, although there is more than 15 year that I have been an activist.
This brotherhood sense which makes people in the street say hello even they don’t know each other, to talk about the past news regarding the black population, which makes pastors talk about the struggle against racism when they are preaching and that makes the bus driver or the drugstore attendant talk about the Black Power Movement and Black Panther Party only because they are seeing my natural hair.
I don’t want to think that this brotherhood send is inexistent in Brazil, but I prefer to believe that it is still on construction, where we are trying first to discovery who we are and after we can unify who we are as individual to what we are as collective and that takes time.
However, why can’t we join our pain? These are easier to identify and more touchable than awareness. The black people pain is there, stamped in these past 500 years, in the whole Diaspora, no matter if is here in the US or in Brazil, the cheaper meat in the market is still the black meat, the most vulnerable and available body is still ours. So maybe we could start over there.
If we join our pain and learn with our experiences maybe we could find a common way to follow with could allow us to have an easier journey and maybe to help us to have less painful life in the Diaspora.
I still don’t know what is this way, and I also don’t believe that there is a receipt for it, but with all my heart, I look to see this union as a piece of hope in the fight against racism. 
What I have been learning in these few days here is that there isn’t worse or better racism, what there is the necessity to fight against this evil thing that hurt and kill us, no matter if is here or there.
Let us fight!

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O fim de um ciclo / The end of a cycle

E esse post marca o final de mais um ciclo na minha vida. Finalmente na semana passada, após dois anos e meio consegui terminar o mestrado.
O dia 25 de junho fica marcado em minha vida como um dia de extrema emoção, ao ter meu trabalho avaliado por pessoas fundamentais para a luta contra o racismo no Brasil e ouvir frases como “eu aprendi muito com seu texto” e “esse trabalho conseguiu abordar coisas fundamentais para esse tema”.
Ouvir algo assim não envolve apenas a questão do ego, pois com esse temos que tomar muito cuidado, mas envolve também e principalmente a noção de que se está no caminho certo, que a luta tem sentido real.
Embora eu venha trabalhando esse tema há aproximadamente quatro anos, primeiro na especialização e depois no mestrado, esse era um tema que estava em minha mente muito antes disso, pois ainda na graduação, eu já desejava falar sobre o movimento hip-hop e concluir mais uma etapa me faz pensar sobre o que eu aprendi com meu trabalho.
Foi uma escrita altamente introspectiva, momentos de muitas lembranças e até mesmo de lágrimas e revi muitas coisas em minha vida.
Entendi que mais do que simplesmente pesquisar, eu me descrevi nesse trabalho, coloquei parte da minha alma ali.
Relembrei cada etapa do meu processo de conscientização, que aconteceu a partir do hip hop. Compreendi também, como cada uma das festas que participei foi importante para que minha identidade quanto negra se solidificasse.
Posso dizer que isso não foi apenas uma dissertação, foi praticamente uma autobiografia.
Agora chega o momento de um novo passo, não consigo visualizar o que mais essa pesquisa pode trazer, mas com certeza estou pronta para uma nova fase de aprendizado. 
Espero que vocês continuem me acompanhando na jornada
Que venha o doutorado!



And this post is a mark for the end of another cycle in my life. Last week after two years and a half years I finally finished my Master course.
June 25th is going to be highlighted on my life as an extremely emotional day, when I had my job evaluated by some fundamental people for the struggle against the racism in Brazil and to hear sentences as “I learned a lot with your text” and “this work got to approach fundamental things for this subject”.
To hear somehting like this doesn’t involve only an ego question, because I know we need to be careful with this, but also involves mainly the notion of that I’m in the right way and that this struggle has a real mean.
Although has been almost four years that I have been working this theme, first on my specialization course and after on my MA, this was a subject that was already on my mind a long time before it, because during undergrad I already wished to talk about hip hop movement and to conclude another stage makes me think about what I learned with my work.
It was a really introspective write, several memories and I was crying in some moments and I reviewed a lot of things on my life.
I understood that more than just research, I was describing myself on this work, I put part of my soul overthere.
I remembered each step of my conscious process, which have happened from hip hop. I also understood how each one of the parties that I took part was important to solidify my identity as a black woman.
I can say that this wasn’t only a thesis, but it was practically an auto biography.
Now is the moment for a new step and I can’t see what else this research can bring to me on my PHD, but I’m ready for a new learn phase.
I hope you all can keep beside me on this journey.
Welcome PHD!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Começando novamente / Starting again

E depois de um longo tempo consigo retomar minhas atividades.
Finalmente consegui entregar minha dissertação de mestrado. Foi um longo processo de escrita, extremamente introspectivo, cheio de reflexões e onde acabei colocando uma parte de mim no papel.
Tudo isso me deixou um pouco exausta e ainda não me sinto hábil para voltar a escrever aqui no blog, mas enquanto terminava a dissertação, acabei escrevendo uma rima que queria colocar no texto e no final achei que não seria viável, então partilho com vocês.

Obrigada Hip Hop!
Sentada na cama ouço uma canção
Que fala de problemas referentes a nação
Problemas que não me eram desconhecidos
Questões que me abalavam e mexiam muito comigo
Falava de pobreza na periferia
Falava de descaso com a grande maioria
Mencionava bairros que estavam ao meu redor
Becos e vielas que iam de mal a pior
Me vi refletida naquela descrição
Parecia que aquilo era sobre minha situação
Isso despertou minha curiosidade
Me fez perceber qual era a verdade
Verdade que abre os olhos do alienado
Que fazem manos e minas correrem lado a lado
Conforme encontrava cada um dos cinco elementos
Aumentava ainda mais minha sede de conhecimento
Me fez entender o que é ser negro por aqui
Que se eu queria a mudança eu teria que agir
Me ajudou a ver as armadilhas do sistema
Mostrou claramente o que estava por trás daquela cena
Que não resolvia nada sentar e chorar
Que essa descoberta era um motivo para lutar
E que nessa luta eu não estava sozinha
Que tinha muitos outros com uma visão parecida com a minha
Que era uma jornada de muitos heróis
Que há anos se levantavam contra o algoz
Heróis que lutavam para quebrar as correntes
E deixar livre o corpo, a alma e a mente
Me apresentou a líderes mundiais
Que haviam dado suas vidas pela paz
Falava da diáspora em outras nações
Que naqueles navios tinham muitos porões
Porões lotados de homens e histórias
Que era necessário resgatar sua memória
Isso norteou a minha caminhada
Entendi qual seria a minha jornada
Comecei a lutar por igualdade
Estudei, busquei, lutei para mudar minha realidade
Mas não posso esquecer o que ficou para trás
Nomes, fatos, memórias de tempos que não voltam mais
Vidas que se cruzaram nas ruas da cidade
Que juntos desenhavam um outro tipo de realidade
Todos motivados pela mesma dor
Unidos pelo som, pela paz, pela cor
Minha vida não seria a mesma sem o nosso encontro
Tudo mudou a partir daquele ponto
Que sem a sua ajuda eu não estaria aqui
Um muito obrigado por você existir
E por essas e outras é preciso agradecer
Dizer bem nos olhos hip hop devo tudo à você

And after a long time I can restart my activities.
I finally finished my Master’s thesis. It was a long write process, extremely introspective, full of reflections and where I put a big piece of me on the paper.
Everything made me really exhausted and I’m still not able to write in the blog again, but while I was finishing my thesis, I wrote a rhyme that I was trying to include on my text, but at the end I thought wouldn’t be viable, so I would like to share with you. Unfortunatelly I still don’t know how to translate it rhyming in English, but I think you can understand the sense.

Thank you Hip Hop!
Sitting on my bed I hear a song
Which talks about issues that refers to the nation
Issues that weren’t unknown
Questions that shook and were messing with me
It was talking about poverty in the ghetto
Talking about neglect the majority
It was mentioning neighborhoods around me
Alleys and lanes that were going from bad to worse
I saw my reflection on that description
It shows as if that were about my situation
This arouse my curiosity
And made me see the truth
A true which opens the alienated eyes
This makes brothers and sisters run side by side
As I was meeting each one of the five elements
It was increasing my thirst for knowledge
It makes me understand what is to be black here
If I wanted to change I would need to act
It helped me to see the system traps
Showed me clearly what was behind that scene
That wouldn’t work to sit and cry
 This discovery was a reason to fight
And on this struggle I wasn’t alone
There were many others with a vision similar to mine
It was a journey with so many heroes
Whom have been a long time arising against the tormentor
Heroes who were fighting to break the chains
And let free the body, the soul and the mind
It introduced me to world leaders
Who had given their lives for peace
It was talking about the diaspora in other nations
That on those ships there were several basements
Basements which were full of men and histories
And that were necessary to rescue their memories
This guided my walk
I understood what would be my journey
I started to fight for equality
I studied, I sought, I fought to change my reality
But I can’t forget which were left behind
Names, facts, memories from times that aren’t going to come back
Lives which were crossing in the city’ streets
Together drafting another kind of reality
Motivated by the same pain
United by the sound, by the peace, by the color
My life wouldn’t be the same without our meeting
Everything changed from that point
Without your help I wouldn’t be here
Thank you very much for your existence
And for these things and many others I need to be grateful
Look into your eyes and say hip hop I owe everything to you