segunda-feira, 23 de junho de 2014

Rainbow-Push Coalition 43rd Annual International Convention

It is a pleasure and a honor to announce that I was invited to be a panelist in the 43rd Rainbow-Push Coalition Annual International Conference. I'm going to talk about Human Rights for the Afro Brazilian population. If you are in Chicago please join us next monday June, 30 at 9.30 at the Sheraton Hotel. 
http://rainbowpush.org/index.php/pages/2245/

terça-feira, 29 de abril de 2014

O racismo e as bananas que não somos obrigados a engolir / Racism and the bananas that we don’t have to eat

Essa semana a mídia foi tomada por dois casos envolvendo racismo no esporte, não que esses sejam casos isolados, mas esses foram casos de grande repercussão.
Nos EUA, o dono do time de basquete Los Angeles Clippers, Donald Sterling, fez um comentário racista ao ver uma foto de sua namorada com Magic Johnson, afirmando que não gostaria de ver imagens dela no instagram com negros.
A mídia divulgou o caso e a imagem do empresário ficou manchada, seus jogadores se recusaram entrar em quadra com a camisa do time, o cantor que ia interpretar o hino nacional desistiu de cantar e Sterling não apenas sofreu críticas duras, como também foi banido da NBA pela vida inteira, não podendo nem comparecer aos jogos e ainda recebeu uma multa de 2,5 milhões de dólares.
Na Europa, o jogador brasileiro que atua no Barcelona, Daniel Alves foi atingido  por uma banana que foi jogada no campo pelos torcedores em uma clara intenção de chama-lo de macaco. Ele em uma reação de momento, pegou a banana, comeu e continuou jogando.
A mídia brasileira noticiou o caso como se racismo fosse algo que só acontecesse fora do país. Em pouco tempo o jogador Neymar decidiu “criar” uma campanha de apoio ao colega onde aparece comendo uma banana ao lado da frase somos todos macacos. A campanha, que mais tarde se revelou ser um case de uma agência de publicidades foi adotada por personalidades e artistas, incluindo o apresentador Luciano Huck que decidiu lucrar o caso, vendendo camisetas e outros produtos com a frase que supostamente ajudaria a combater o racismo.
O que essas reações dizem sobre os dois países?
Nos EUA, racismo não é crime, a pessoa tem o direito de se expressar garantido pela primeira emenda da constituição mesmo que seus comentários sejam racistas. Mas ainda que os EUA “pós-racial”, seja repleto de racismo, poucos ousam expressar esse sentimento, como Sterling fez, pois se declarar racista pega mal, as pessoas reparam, acham feio (ainda que elas pensem igual), os patrocinadores não investem mais na empresa e seu filme fica muito queimado.
No Brasil, ao contrário dos EUA, racismo é crime inafiançável, a pessoa que faz comentários racistas pode ir para a cadeia, então se a pessoa quiser ser racista até pode ser, mas não deve expressar, tem que morrer entalado com seu racismo. Porém como outras leis no país, essa também não funciona e poucos são aqueles que realmente foram punidos por isso.
Ao contrário dos EUA, no Brasil, ser racista não pega mal, é até engraçado, é uma coisa que você pode fazer amigavelmente, ser socialmente racista e quando a pessoa atingida reclamar você diz que ela não tem senso de humor, que o racista é ela e que na verdade somos todos iguais e ela que quer dividir o país.
Ao se banalizar uma ofensa racial como a campanha somos todos macacos faz, presta-se um desserviço à população negra, pois se nós somos todos macacos, nenhum de nós precisa se ofender com isso ou lutar contra a ofensa.
Ao ter autoridades como a presidenta da república realizando o ato de comer uma banana, o ato legitima a banalização sem respeitar a dor daqueles que passam sua vida inteira sendo chamados de macaco e o racismo vira comédia.
Contudo, ainda que esses casos demonstrem a maneira diferente como os dois países lidam com o racismo (um finge que já resolveu e o outro finge que ele não existe), há algo em comum nos dois casos, a participação passiva de negros que aceitam esse tipo de ação racista.
No caso de Donald Sterling, temos o presidente da NAACP Los Angeles (instituição histórica na luta pelos direitos dos afro-americanos) que diz que as doações financeiras feitas pelo empresário mostram que ele não é racista. Temos também a namorada do empresário, que mesmo sendo negra e conhecendo os atos racistas que ele cometeu no passado, continua ao seu lado aceitando esse tipo de atitude.
No caso brasileiro nós temos a figura de Neymar, jovem negro, que não se assume como tal, mesmo sendo vítima de atos racistas como esse diversas vezes. Neymar foi quem divulgou a ideia como algo sendo natural, sua presença legitima o fato de nos exporem ao ridículo. 
Ao associar o ato de comer a banana com a luta contra o racismo, minimiza-se a questão e banaliza-se o tema. O programa esportivo da maior emissora do país (e também a mais racista) diz que ao comer a banana Daniel Alves engoliu o racismo.
Esse é o ponto que o Brasil ainda não entendeu, nós negros não temos que engolir o racismo, o racismo é um veneno que nos mata um pouco a cada dia. O racismo não deve ser engolido, ao contrário deve ser jogado fora, combatido por meio de luta e resistência.
Quando a gente engole o racismo, ele fica lá dentro, encubado, germinando até sufocar aquele que o engoliu. Por isso, se alguém tem que engolir o racismo, que seja então o racista. Que ele se envenene sozinho com seu ódio.
Comer bananas ou engolir o racismo não colabora com nossa luta, ao contrário nos prejudica cada vez mais e desvaloriza a resistência daqueles que tem lutado para que o racismo seja extinto da sociedade. Por isso:
Não coma as bananas que os racistas estão dando pra nós!


This week the media was taken by two cases of racism in sports, not that it is a new fact, but these cases had a really huge impact.
In the USA the Los Angeles Clippers owner, Donald Sterling, did a racist comment when he saw a picture of his girlfriend with Magic Johnson, affirming that he wouldn’t like to see her picture associated with black people in instagram.
The media released the case and his image was compromised, his players refused to play with the team jersey, Tank decided don’t sing the national anthem and Sterling not only received rigorous critics but also was suspended from NBA for life and received a 2,5 million dollars fine.
In Europe, the Brazilian soccer player Daniel Alves, who plays in the Barcelona team, was reached by a banana which was throw in the field by the fans in a clear intention of call him a monkey. He in a moment reaction ate the banana and kept playing. (In Brazil and some latino countries call a black person a monkey is like call a black person a jigaboo in the US and throw a banana is similar to throw a watermelon for African Americans).
The Brazilian media noticed the case as if racism was something that only happens abroad. Soon, the soccer player Neymar decided “to create” a campaign to support his colleague where he appears eating a banana with the phrase we are all monkeys. The campaign that later was revealed as a marketing case was adopted by artists and personalities, including the entertainer Luciano Huck, who decided to make money with the case selling t-shirts and other products with the sentence that supposedly should help to combat racism.
What do these reactions tell about both countries?
In the US, racism is not a crime, the person has the freedom of expression guaranteed by the Constitution First Emend, although these comments are racist. However, even if the “post racial” US is full of racism, few people dare to show their feelings, as Sterling did, because declare themselves racist is something bad, people don’t like it, they think is terrible (even if they think in the same way), sponsors don’t want to give you money anymore and you get a really bad image.
Unlike the US, in Brazil racism is a non-bailable crime, the person who wants do racist comments can go to the jail, so if the person wants being racist the person can be, but can’t express the feeling, needs to keep it to them and being choked to death. However, this law doesn’t work, as other laws in the country and there are few people who were punished for racism in Brazil. 
Unlike the US, in Brazil, being racist is not so bad, it is actually funny, it is something that you can say in a friendly way, you can be a “social” racist and when the offended person complain you can say that the person doesn’t have humor , that actually the person is racist and that we are all equal and that the person wants to share the country. (sarcasm)
When we trivialize a racial offense as this campaign we are all monkeys does, it is actually a disservice to the black population, because if we are all jigaboos, so nobody should feel offended by the word and nobody needs to fight against it.
When authorities as the President take pictures eating a banana, the act itself legitimizes the racism trivialization without being respectful with the pain of those who have been called monkeys their whole lives, and racism becomes a joke.
However, even if these two racism cases show the different way how these countries deal with racism (one pretends that racism is already solved and the other pretends it doesn’t exist), there is something in common in both cases, the passive participation of some black people who accept this kind of racist action.
In Donald Sterling case we have the president of LA NAACP, Leon Jenkins, who affirms that the donations that Sterling did to the institution proves that the businessman isn’t racist. We also have Sterling’s girlfriend who even if knows he already did racist actions in the past is still dating him accepting this kind of attitude.
The Brazilian case bring us the figure of Neymar, young black man, who didn’t assume his blackness, even if he was also a victim of racist acts with the bananas in the past. Neymar was the one who exposed the idea of the campaign as something natural, his presence in the campaign legitimize the fact that they are exposing us in a ridiculous situation.
When they associated the act of eat a banana to the fight against racism, the pain was minimized and the struggle was trivialized. The sport show of the most important tv channel in Brazil (which is also the most racist tv channel) says that when Daniel Alves ate the banana he also ate the racism.
This is the point that Brazil didn’t understand yet, we as black people we don’t need to eat the racism, it is a poison that kills us each day. So, racism doesn’t need being eat, unlike it should be thrown away, combated with struggle and resistance. 
When we accept a racist act, it remains within us, incubates, germinating until suffocate the one who accepted it. For this reason if someone needs to die suffocated with the racism, so it is better if the suffocated person is the racist. He can die, poisoned with his hate.
Eating bananas or accept the racism will not cooperate with our struggle, unlike it will create more issues and devalues the resistance of those who have been fighting to stop racism in the society. For this reason:
Don’t eat the bananas that racists are giving to us

quinta-feira, 20 de março de 2014

Nos matam aos montes / They kill us in mass

Confesso que a escrita desse post é dolorida, por isso relutei ao máximo em escrevê-lo. Mas também pode ter sido covardia, falta de coragem em admitir que tudo isso está realmente acontecendo, como se ao não mencionar deixasse de ser verdade.
Mas não há como negar, não há ausência de escrita que vá fazer deixar de ser verdade o fato de que nossas cabeças estão a premio. Estão nos matando aos montes.
Só nos últimos meses quatro histórias se destacaram na mídia envolvendo corpos negros tratados como nada, como lixo, que pode ser descartado a qualquer momento.
O primeiro choque veio com as correntes nos postes, a tortura na calada da noite, o corpo negro exposto nu, humilhado sem defesa.
Os gritos de justiça a qualquer preço geralmente são acompanhados da negação do racismo, mas não há discurso que apague a imagem do adolescente negro tratado como bicho, sem direito a humanidade, por ter nascido pobre, por ter nascido preto, sem oportunidade.
As críticas a dor que senti (sentimos, pois acredito que você também), vieram imediatamente, afinal estávamos defendendo o marginal, o crime não tinha nada a ver com racismo, mas era a busca por um “meliante”.
O menino sem nome definido pelos jornais apenas como o menor é filho de outro jovem, negro e sem oportunidade que se viu na vida do crime e foi assassinado sem ter tempo de criar o filho. A rua, o crime, o crack foi o que sobrou para o jovem negro torturado nas ruas do Rio de Janeiro.
O vício maldito que faz milhares de vítimas no Brasil (só quem já perdeu alguém para o crack sabe a dor que é), vitimou também um outro jovem, loiro de olhos azuis no sul do país, que também roubava para sustentar seu vício. Esse não foi tratado como “o marginalzinho” pela mídia sensacionalista e com ele ninguém quis fazer justiça com as próprias mãos, ao contrário lhe deram casa, comida, roupa lavada, agência de modelos e clínica de reabilitação, pois ele era lindo demais para ser mendigo e viciado.
Ao contrário do menino negro que era “feio” e merecia ser açoitado aos sons dos clamores pela volta do pelourinho.
“Feio” também era Vinícius Romão, jovem negro, psicólogo, ator, que foi preso sem direito a explicação, por ser confundido com assaltante, afinal era negro e usava black power, porque todos os negros são iguais e usar cabelo black também é sinônimo de bandidagem. Passou 16 dias preso, sem direito a apuração e só foi solto, porque o fato de ter um pouco mais de visibilidade fez com que seu caso ganhasse força e amenizasse a fúria daqueles que já estão acostumados a matar inocentes. Pois afinal, eles nos matam aos montes.
A vítima de roubo que denunciou Vinicius, também é uma mulher negra, que já está tão condicionada a associar sua própria cor ao mal, que em meio ao nervosismo concordou com a ação da polícia, ainda que não tivesse muita certeza que havia sido aquele jovem e não outro que a roubou. É vítima da alienação do mesmo sistema racista que nos mata aos montes, se não pela morte física, mas nos mata emocionalmente.
Temos então o caso da amiga Nina Silva, escritora, administradora de empresas, ativista do movimento negro, que se viu discriminada em uma porta giratória de uma agência bancária, reclamou, foi tratada como alguém que exagera e se viu dentro de um hospital tendo que ser medicada para aplacar a dor emocional que o racismo causa.
Por último, temos o caso de Cláudia da Silva, mulher negra, mãe de quatro filhos, que cometeu o crime grave de ir a padaria comprar pão e carregar um copo de café em suas mãos. Foi baleada a curta distância e arrastada pela viatura por mais de 300 metros agonizando como nem animais mereceriam ser tratados. No sensacionalismo da mídia, Cláudia perde seu nome, virou a mulher arrastada, porque afinal a morte preta não comove mais, porque eles nos matam aos montes.
Quatro casos em pouco mais de um mês, todos seguidos de gritos esbravejados de não foi racismo, vocês veem racismo em tudo, o racista é o próprio negro e todas as outras palavras que quem vive no Brasil já está acostumado, porque afinal todos os dias nos matam aos montes, com palavras, com ações e com o maldito “racismo amigável”, que permite você ser chamado de macaco amigavelmente.
Mas não posso ser injusta, pois não é só no Brasil que nos matam aos montes. Em toda a diáspora a história se repete, já estão acostumados a exterminar corpos pretos.
Se Vinícius passou 16 dias preso sendo inocente, assim como ele tantos outros estão atrás das grades sem terem cometido nenhum crime, ou por delitos menores cuja pena já poderia ter sido cumprida há muito tempo. A história se repete aqui nos EUA, onde após quase 30 anos no corredor da morte, Glenn Ford, conseguiu sua liberdade, pois era inocente da acusação de homicídio pela qual fora preso, assim como havia afirmado em três décadas, mas ninguém deu ouvidos. Agora ele pode voltar pra sua vida. Mas que vida?
O caso de Cláudia com seu copo de café na mão, me lembra outro caso, de Trayvon Martin, que morreu porque carregava um pacote de skittles (balas) e por isso foi considerado suspeito. A sua família coube enterrar o corpo e ver o acusado sair livre e sorrindo.
Que me lembra também de outro jovem, que morreu porque ouvia música suspeita, afinal vendendo milhões ou não, o rap continua sendo música de preto.
É aqui também nos matam aos montes.
O pior de tudo é pensar que esses são apenas alguns casos que ganham visibilidade na mídia, mas que estão longe de serem casos isolados, pois onde quer que seja continuam nos matando aos montes.
Como mostram as centenas de denúncias feitas pela Campanha Reaja ou será morto, Reaja ou será morta, que tem levantado sua voz e exigido uma solução contra o genocídio da população negra, sem recuar.
Só no Brasil, foram 300 mil jovens negros assassinados em dez anos, a maioria pelo braço armado do Estado, que já está acostumado a nos matar aos montes.
E nós que estamos vivos, vamos assim morrendo por dentro, com as dores daqueles que nos são iguais, fazemos parte do “monte” que todo dia é assassinado sem direito a grito e ao clamor contra o racismo. Só me pergunto até quando nos matarão aos montes?






I need to confess that to write this post is really painful and for this reason I postponed to do it. But, I also need to confess that it happened because I’m a coward, I was not brave enough to admit that all these things are really happening, thinking that if I didn’t say it would not be true.
However, I can’t deny anymore, there is no absence of words that is going to make untrue the fact that there is a reward for our head. They are killing us in mass.
Only in these past months four histories were highlighted by the Brazilian media involving black bodies treated as nothing, as trash, that can be disposable any time.
The first shock came with chains in stop signals, the torture in the middle of the night, an exposed naked black body, humiliated without defense.
The cry for justice by any means usually are followed by a denying of racism, but there is no speech that can erase the image of the black teenager treated as an animal, without right to his humanity, only because he was born black and poor without opportunities.
The critics to the pain that I felt (we felt, because I believe that you felt too), came immediately, because we were defending a thief, and the crime wasn’t racism, but it was a search for “criminal”.
The nameless boy defined by the newspapers only as a minor is the son of another young black man without opportunities who were involved in the criminal life, who was murdered and didn’t have time to raise his kid. The streets, the crime, the crack was the legacy that the young black boy tortured in the Rio de Janeiro streets received.
The damned crack addiction make several victims in Brazil (only someone who lost someone to the drug knows how painful it is), it victimized another young man in Brazil: blond, blue eyes, in the south of the country, who also used to be a pickpocket to support his addiction. This one was not called by the sensationalist media as a “criminal”, nobody requested justice by any means, unlike they gave him a home, food, clean clothes, a modeling agency and rehab, because he was to handsome to be homeless and addict.
Unlike the black boy who was “ugly” and deserved being whipped under the sounds of the cry to bring back the public whip.
Who was also “ugly” was Vinicius Romão, young black man, psychologist, actor who was arrested without right to defend himself, when he was misunderstood as a robber, because he was black and had an afro hair, because all black people are equal and having an afro hair is a synonymous of criminality. He was in prison for 16 days, without rights for investigation and only was released because his visibility made his case stronger and it diminish the furor of those who are habituate to kill innocent people. Because, as usual they are killing us in mass.
The victim who accused Vinicius, is also a black woman, who is probably so conditioned to associate her own color with the evil, that in a nervous situation agreed with the Police action, even if she wasn’t sure that he was the man who stole her. She is also a victim of the alienation of the same racist system which is killing us in mass, not only through the physical death, but are also killing us emotionally.
In the same way, we have the case of my friend Nina Silva, writer, business woman, activist in the Black Political Movement, who suffered racism in a bank door and was treated as someone that is exaggerating and saw herself inside a hospital, receiving medication to relief the emotional pain caused by the racism.
At least, we have the case of Claudia da Silva, black woman, mother of four children, who committed the terrible crime of going to the bakery by bread carrying a glass of coffee. She was shoot in a short distance and dragged by the Police car for more than a quarter mile, dying as not even an animal should be treated.  In the sensationalist media, Claudia lost her name, became the dragged woman, because the black death isn’t able to cause emotion anymore, because they are killing us in mass.
Four cases in a little bit more than one month, they were all followed by people screaming that “these weren’t racism”, and “you see racism everywhere”, “the black person is the racist one” and all the other sentences that all those who live in Brazil are habituate to hear, because as I said they are killing us in mass, with words, with actions and with the damn “friendly racism”, which allows calling you a jigaboo in a “friendly” way.
But I can’t be unfair, because is not only in Brazil that they are killing us in mass. In the whole Diaspora the history is repeating, they are habituate to exterminate black bodies.
If Vinicius spent 16 days arrested being innocent, like him several other people are in prison without commit any crime or because they did minimal crimes for those they could be free a long time ago. The history is the same here in the US, where after almost 30 years with a death sentence, he was released, because he was innocent of the homicide accusation, as he was affirming during these past three decades, but nobody listened him. Now he can goes back to his life. But which life?
The case of Claudia with her cup of coffee on her hands, reminds me another case, of Trayvon Martin, who was murdered because was carrying a Skittles pack and for this reason was considered suspect. To his family the legacy was burry his body and see the assassin being freed with a smile on his face.
It also reminds me another case of a black boy who was murdered because he was listen a suspect music, because no matter if it sells millions or not, rap is still a black music.
Yes, here they also are killing us in mass.
The worst thing is to think that these are only few cases that got some media visibility, but that they are far from being isolated cases, because no matter where we are they are still killing us in mass.
As has been showed by the several denounces made by the campaign Reaja ou sera morto, Reaja ou sera morta (React or you will be dead), which has been raising their voice and asked a solution against the black genocide in Brazil, without turn back.
Only in Brazil, we had more than 300 thousand black youth murdered in these past 10 years, most of them by the armed wing of the State, which is already habituate to kill us in mass.
Us who are still alive, we are dying inside, feeling the pain of those who look like us, we are part of this “pack” that is murdered every day without the right to scream or to cry against racism. I only wonder  how long are they going to kill us in mass?

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Sobre ser uma mulher negra brasileira vivendo no exterior / About being an Afro Brazilian woman living abroad


O processo de escrita desse post tem sido longo. Por várias vezes já pensei em começar, mas me sinto tão sensibilizada com o tema, que vejo o quanto isso pode prejudicar a escrita e simplesmente paro.
A primeira vez que vim aos Estados Unidos, tive a oportunidade de morar por dois meses em Atlanta no estado da Georgia. A experiência foi tão profunda para mim que cada etapa do que vivi era visto como algo mágico. Entre esses, também era novo para mim o fato de ser considerada uma mulher bonita pelos homens negros aqui, coisa que não acontecia com frequência no Brasil.
Naquele período de dois meses, aprendi que a palavra bonita tinha uma outra conotação quando ela vinha acompanhada da frase “ah você é do Brasil?”. Era fácil perceber que o que estava em jogo não era apenas o fato de ser bonita ou não, mas era antes de tudo o fato de ser brasileira que significava alguma coisa. 
Sempre tinha ouvido falar sobre o estigma da hipersexualidade da mulher brasileira no exterior, que essa era vista como uma mulher fácil, ou ao até mesmo como uma prostituta, mas sempre achei que isso era uma generalização e não um fato concreto. 
Com o passar dos anos, eu que sempre tive amizade com americanos negros, nunca pensei nesse tema como uma possibilidade, considerando-se que com meus amigos, sempre tive uma relação de respeito e igualdade independente de suas nacionalidades.
E essas relações foram cada vez mais me aproximando do conceito de diáspora e a tentar pensar na luta negra de forma coletiva onde negros de todo mundo devem estar unidos na luta contra o racismo.
Nesse período comecei a ter mais contato com a comunidade negra americana por conta do meu trabalho e cheguei a ser abordada por alguns homens negros americanos de forma indevida, mas sempre vi como fatos isolados, pois acredito que falta de caráter independe de nacionalidade.
Preciso dizer que esse pensamento não mudou, continuo encontrando pessoas maravilhosas no meu caminho e fazendo ótimos amigos aqui.
Contudo é preciso dizer que desde que passei a viver nesse país, alguns fatos chegaram ao meu conhecimento, tornaram as coisas mais claras e me deixaram realmente entristecidas.
O primeiro fato foi um comentário de um estranho sobre homens afro-americanos irem ao Brasil a procura de prostitutas, pois isso facilitaria o relacionamento apesar da barreira da língua. O segundo fato foi a observação de comportamentos indevidos de alguns homens negros americanos no Brasil, que tratavam mulheres como um corpo disponível, como pessoas que estariam ali apenas esperando por eles. Por último, tive acesso a um video que circula livremente pelo youtube onde homens afro americanos dizem procurar mulheres brasileiras, pois essas seriam submissas, não estariam preocupadas com status ou posição social e não teriam um alto nível de educação.
O vídeo me chocou por diversas razões:
A primeira pelo fato de que todas as mulheres no video eram negras.
A segunda pelo fato de que a maioria das mulheres no vídeo visivelmente faziam parte de uma rede de prostituição e as pessoas de forma indiretas mencionavam turismo sexual.
A terceira pelo fato de que o video em todo o momento criava uma tensão entre as mulheres negras brasileiras e as mulheres negras americanas, onde essas estariam sendo preteridas pelas primeiras.
A perspectiva apontada pelo vídeo me fez sentir realmente mal, comecei a lembrar de diversos fatos isolados não apenas que aconteceram comigo, mas também histórias de pessoas conhecidas que tinham exatamente essa perspectiva: mulheres negras brasileiras sendo tratadas como seres de segunda classe por aqui.
Comecei a lembrar que geralmente os comentários sobre a mulher negra brasileira ser bonita, vinham acompanhados sobre comentários de como esses homens gostariam de ir ao Brasil e se divertir muito, mas nunca acompanhado de um pensamento de encontrar uma mulher negra brasileira para um relacionamento verdadeiro, esses são reservados para boas mulheres americanas.
A tristeza só aumenta quando penso que isso é o reflexo de nossos corpos sendo vendidos como produto desde a escravidão, afinal no Brasil a branca sempre foi para casar, a “mulata” para foder e a preta para trabalhar.
Como mulheres Afro Brasileiras sejamos nós de pele escura ou clara, nos tornamos ao longo dos anos a mulata exportação, o símbolo da sexualidade de um país, uma bunda ambulante que está disponível, aquela que merece ser desfrutada, mas que nunca se tornará a senhora.
Enfim, o Brasil que foi tão hábil em mascarar seu racismo com o passar dos anos, também foi esperto o bastante para nos vender como seu melhor produto, que atrai milhares de “clientes”.
Mas se o Brasil vende um produto, existe por outro lado um país que está comprando essa imagem, que está acreditando que a mulher negra brasileira é realmente a grande prostituta que se diz. E isso realmente me entristece. Me entristece, pois eu conheço e tenho estudado cada vez mais a luta das mulheres afro-americanas para fugir de estereótipos como esses. Então porque acreditar quando isso é associado a irmãs de outros países?
Não há como falar em diáspora, sem pensar em união, sem pensar em partilha de dores e experiências na luta contra o racismo e pensar que eu posso ser observada como alguém que não é boa o bastante realmente me faz pensar se estamos em uma luta coletiva.
É claro que não posso generalizar, como eu mencionei antes minhas relações pessoais dentro da comunidade sempre foram maravilhosas e acredito que assim como meus amigos existam outras pessoas que também estão abertas a conhecer e respeitar a cultura do outro e seguir em uma luta conjunta.
Prefiro pensar que na maioria dos casos o que acontece é uma falta de conhecimento sobre a cultura brasileira ou sobre o que realmente acontece no Brasil.
Por isso resolvi responder em poucas palavras algumas das questões levantadas no video Frustrated: Black American Men In Brazil.
Sobre a sexualidade da mulher negra brasileira: Não há como generalizar, em um país com mais de 50 milhões de mulheres negras, cada uma irá lidar com sua sexualidade de maneira pessoal. Conheço mulheres negras que são sexualmente mais liberadas, como conheço outras que são virgens, não existe um padrão para a sexualidade da mulher negra em meu país. Também não acredito que tenhamos uma sexualidade mais aflorada que outras mulheres no mundo, acredito que isso é muito mais um conceito vendido do que uma verdade. A única certeza que tenho é: NÃO SOMOS UM CORPO A DISPOSIÇÃO, ir ao nosso país não significa sexo fácil, apenas porque somos brasileiras e isso é fato.
Sobre mulheres negras brasileiras serem submissas: Entendendo o machismo em meu país, acredito que muitas mulheres no Brasil ainda são subjugadas por homens, mas assim como sexismo existe em todos os lugares, a luta do feminismo negro também existe e nós temos nos levantados contra todo o tipo de opressão de gênero e raça. Temos um histórico de luta e protagonismo em nosso país, mulheres negras desde sempre foram responsáveis pela manutenção da família, como matriarcas que eram e também pelo pioneirismo político em diversas situações. NUNCA ESTIVEMOS NOS BASTIDORES.
Sobre prostituição no Brasil: Existe prostituição no Brasil como existe em qualquer lugar, na verdade o Brasil ainda é um país bem retrogrado nesse sentido, pois é um dos países no mundo, onde prostituição ainda é ilegal e considerada crime. E NÃO, NÃO SÃO TODAS AS MULHERES NEGRAS BRASILEIRAS QUE SÃO PROSTITUTAS OU QUE VÃO TROCAR SEXO POR FAVORES.
Sobre mulheres negras brasileiras serem melhores que mulheres negras americanas: Não acredito que possa ao menos existir essa comparação, politicamente falando mulheres negras nos dois países tem partilhado uma história de luta e militância e aprendido muito umas com as outras. Fisicamente falando, acredito que na verdade somos muito mais parecidas do que nunca, afinal vejo diversas pessoas aqui que se parecem comigo, com minhas amigas, com minhas irmãs. Emocionalmente, temos um histórico diferenciado, apesar de sofrermos com a opressão do racismo, mas acredito sinceramente que nenhuma de nós tem tempo ou vontade de ser o capacho de homem algum . Sexualmente falando, acredito que a questão da sexualidade tem que ser tratada como o que é, algo pessoal que compete apenas aos envolvidos. É mais do que hora de quebrarmos os estereótipos que foram criados sobre nós.
Bom, o post foi longo, mas espero ter sido claro e que ajude para que possamos continuar construindo relações fraternas na luta contra o racismo. Todos são bem vindos no Brasil, mas é preciso derrubar imagens que não são verdadeiras.
Deixo com vocês um link para o video Frustrated: Black American Men In Brazil. E convoco a todas mulheres negras brasileiras e americanas para se unir e dar uma resposta  a altura para algo tão preconceituoso e machista.
http://www.youtube.com/watch?v=BOjvPOBvd9A

The process to write this post has been taking a time. Several times I thought about to start, but I feel so sensitive about the subject, and I see how this can worry the writing so I stop.
The first time that I came to the US, I had the opportunity of living during two months in Atlanta-GA. It was a so deep experience that for me each step that I took was seeing as something magic. Among these experiences was also new for me the fact that here I was considered pretty by Black men, what didn’t happen often in Brazil.
During those two months, I learned that the word beautiful had another connotation when it was followed by the sentence “oh are you from Brazil?”. It was easy to realize that what was on the table wasn’t only the fact of being beauty of not, but before this was the fact that to be Brazilian meant something else. 
I always hard about the stigma of the Brazilian women hyper sexuality abroad, the fact that she was seeing as a promiscuous woman, or even as a prostitute, but I always thought it was a generalization and not a real fact.
Over the years, as a person that always had African American friends, I never saw it as a possibility, considering that with my friends I always had respectful and equal relationships independent of where they were from.
These relationships were responsible for approached me of the concept of Diaspora and made me start to thing in the black struggle in a collective way where black people around the world need to be united in the fight against racism.
On this period, I started to have more contact with the African American community because of my work and sometimes I was approached by some African American men in a malicious way, but I always saw it as isolated facts, because I believe that a bad character is a thing that isn’t related with nationality.
I need to say that this thought didn’t change, I still meet wonderful people on my way and I’m still making amazing friends here.
However, I need to say that since I came to live in this country, I start to know some facts, some things became clear and it made me really sad.
The first fact was a commentary made by a strange who told me about African American men who go to Brazil to find prostitutes, because it would make the relationship easier considering the language barrier. The second fact was the observation of a bad behavior of some African American men in Brazil, who were treating women as available body, as people who were there only waiting for them. At least, I had access to a video that is published on youtube, where African American men affirm to look for Afro Brazilian women, because they supposedly were submissive, they wouldn’t be worry about status or social position and they would not be educated.
This video shocked me for several reasons:
Fist,  because all the women on it were black.
Second, by the fact that most of those women were clearly part of a prostitution networking and because indirectly in the video people were mentioning sexual tourism.
Third, the fact that during the video all the moment it was bringing a tension between Afro Brazilian women and African American women, as if those were deprecated by the first ones.
The perspective highlighted by the video made me feel really bad, I started to remember several isolated facts that have happened not only with me, but also histories of people that I know that had exactly this perspective: Afro Brazilian women being treated as second class people here.
I started to remember that usually the comments about the beauty of the Afro Brazilian women, were followed by comments about how these men would like to go to Brazil and have a lot fun, but never was a comment followed by the thought that they could go to Brazil and find a woman to have real relationship, because these are reserved for good American women.
My sadness becomes deeper when I think that this is the reflex of our body being sold as a product since the slavery, because in Brazil, the white woman was to get marry, the “mulatta” to fuck and the black to work.
As Afro Brazilian women no matter if we are light or dark skin we became over the years the “mulatta” for exportation, a symbol of the sexuality of a country, a walking as who is available, the one who deserves to be enjoyable, but who never will become a Mrs.
So, Brazil who was so able in to hide its racism over the years, was also smart enough to sell us as its best product, which can attract millions of “clients”.
However, if Brazil is selling a product, there is on the other hand a country that is buying this image, that is believing that the Afro Brazilian woman is really the great whore that everybody says. And this makes me really sad. It makes me sad because I know and have been learning each day more, about the fight of African American women to escape from stereotypes like these. So why to believe on it when this image is related with sisters from other countries?
There isn’t a way to talk about Diaspora, without to think about union, about share pain and experiences in the struggle against racism and to think that I can be observed as someone that isn’t good enough really makes me think if we are in a collective struggle.
Of course I can’t generalize, as I mentioned before my personal relationships inside the black community here were always wonderful and I believe that as my friends there are other people who are also open mind and are available to know and to respect the culture of their neighbor and to follow in a collective struggle.
I prefer to think that in most of cases what happens is a lack of knowledge about the Brazilian culture or about what really happens in Brazil.
For this reason I decided to answer in few words some of the questions which were approached on the video Frustrated: Black American Men In Brazil.
About the sexuality of the Afro Brazilian Woman: There isn’t a way to generalize it, in a country with more than 50 million Black women, each one of them is going to deal with their sexuality in a personal way. I know Black women in my country who are more sexually open in the same way that I Know other who are virgins; there isn’t a standard for the sexuality of the Black woman in my country. I also don’t believe that we are hyper sexual or are more sensitive for sex than other women in the world, I really believe it is more a sold concept than the truth. The only certainty that I have is: WE AREN’T AN AVAILABLE BODY and to go to our country doesn’t mean easy sex, only because we are Brazilians.
About Afro Brazilian women being submissive: I understand the machismo in my country, and I believe that several women in Brazil are still subjugated by men, but in the same way that sexism is everywhere, the struggle of the Black feminism also exist everywhere and we have been standing against all kinds of oppression of gender and race. We have a history of role in our country, Black women who since always have been responsible for support their family, as matriarchs and also by the political pioneering in different situations. WE NEVER WERE ON THE BACK STAGE.
About prostitution in Brazil: There is prostitution in Brazil as if there is prostitution everywhere. Actually Brazil is still a conservative country in this sense, because it is one of the few countries in the world, where prostitution is illegal and considered a crime. AND NO, NOT ALL BLACK BRAZILIAN WOMEN ARE PROSTITUTES OR ARE GOING TO CHANGE SEX FOR FAVORS.
About Afro Brazilian women being better than African American women: I don’t believe this comparison can even exist, in a political sense black women in both countries has been sharing a history of fight and activism and learning a lot with each other. Physically, I believe that actually we are really similar to each other, because here I see several people who look like myself, my friends, my sisters. Emotionally, we have different history, although we both suffer with the racism oppression, but I really believe that none of us has time or wish to be a doormat for a man. Sexually, I believe that this question needs to be treated as it is, something personal, that compete only to people who are involved on it. It is more than time to break the stereotypes which were created about us.
Well the post was long, but I hope it is clear and can help us to follow constructing friendly relationships in the fight against racism. Everybody is welcome in Brazil, but it is necessary to knock down some images which aren’t real.
I let here the link for the video Frustrated: Black American Men In Brazil. And I call all Afro Brazilians and African American women to join me and give a right answer to something so sexista and full of prejudice.
http://www.youtube.com/watch?v=BOjvPOBvd9A

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O som da diáspora - The sound of the Diaspora

É com grande alegria que eu partilho aqui o link para a minha dissertação de mestrado: O som da diáspora - A influência da Black music norte-americana na cena Black paulistana.
Espero que vocês gostem pois é uma parte muito importante de mim.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100135/tde-18072013-182513/pt-br.php

I'm really happy in to share with you the link for my Masters Thesis: The sound of the diáspora - The influence of American Black in the Black scene of São Paulo.
I hope you enjoy because it is an important part of me.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100135/tde-18072013-182513/pt-br.php

terça-feira, 22 de outubro de 2013

E no final do dia apenas uma mulher negra / And in the end of the day just a Black woman

Esse é um post que vem sendo construído aos poucos, em meio a necessidade me adaptar a minha nova vida e a nova realidade na universidade, algumas coisas começaram a me fazer refletir.
Um dos principais temas presentes na mídia desde que cheguei aqui tem sido o comportamento da cantora Miley Cyrus, que tem tentado de algumas maneiras romper com a imagem de eterna estrela Disney que tinha ao interpretar Hannah Montana, se comportando de maneira a mostrar sua liberdade proclamando sua sexualidade e seu direito em se comportar como tem vontade, ou seja da velha maneira que muitas estrelas Disney antes dela já fizeram com muito sexo, drogas e rock and roll ou seja lá  o que for que ela canta.
Nada contra a necessidade de autoafirmação da cantora, embora ache essa crise de adolescência pública um pouco démodé, também não tenho nada contra o fato de ela expressar sua sexualidade e liberdade como desejar, mas o que tem me incomodado é como ao criticar o comportamento de Miley Cyrus, por considerar suas “atitudes excessivas”, a mídia aqui faz questão de mencionar que ela está fazendo tudo isso porque quer se passar por negra.
Isso mesmo, o seu comportamento considerado exagerado, excessivo, considerado até mesmo obsceno se daria, segundo essas críticas porque ela quer se passar por uma mulher negra.
Essa afirmação me impressionou porque mesmo eu sendo negra minha vida inteira e tendo vivido experiências diversas, eu nunca fiz nada do que ela supostamente tem feito. Além disso, conheço diversas mulheres negras sejam na minha família ou entre as minhas amigas que nunca chegaram nem perto disso. Então porque essa comparação?
Na mesma época, comecei a ver matérias relacionadas com a ida da cantora Beyonce ao Brasil, durante os preparativos para o tão esperado show, todas as matérias publicadas pela versão brasileira de sites como o yahoo e o msn tratavam de trazer matérias negativas sobre a cantora, com títulos como os maiores micos de Beyonce e traziam cenas como seu cabelo ficando preso no ventilador e tombos dela no palco. Mesmo ela sendo uma das maiores cantoras do mundo, não mereceu palavras positivas por parte desses sites, para eles era melhor retratar seu fracasso.
Mas o que mais me marcou durante essas reportagens foi uma imagem durante um de seus shows ao redor do mundo quando um fã decidiu dar um tapa na bunda dela enquanto ela dançava em cima do palco. Mesmo que ela tenha chamado a atenção do fã dizendo que ele seria retirado do show se fizesse aquilo novamente, aquela imagem foi extremamente agressiva aos meus olhos.
Mas você pode estar se perguntando, como a natureza rebelde de Miley Cyrus e o tratamento destinado a Beyonce estão relacionados?
Eles estão relacionados exatamente porque o racismo e o machismo presentes em nossa sociedade fazem com que a imagem da mulher negra seja perpetuada como a de um corpo a disposição, alguém que está ali, disponível para o toque e pronta para o sexo a qualquer momento.
Miley Cyrus, pode até ser considerada degenerada pela opinião pública, mas como uma mulher branca “jamais se comportaria desse jeito”, na mentalidade doentia do racismo e do machismo, ela só pode estar desejando ser negra para se comportar dessa maneira.
Já Beyonce, pode até se comportar como uma diva, pode ter o sucesso de uma mulher poderosa, mas não é possível admitir os seus sucessos, é preciso reforçar os seus fracassos e trata-la como aquilo que ela é: apenas uma mulher negra.
Essa relação entre hiper sexualidade e a imagem da mulher negra faz parte (segundo o que tenho aprendido aqui por meio do pensamento de autoras como Patrícia Hill Collins), da formação de imagens controladas das mulheres negras que são divulgadas como ferramentas que ajudam a manter um sistema opressor e excludente que faz das mulheres negras suas maiores vítimas.
É isso que faz não apenas Beyoncé, mas também, você, eu, ou suas irmãs e mães serem vistas como alguém a disposição, como uma mulher que pode ser explorada emocionalmente e fisicamente, como uma bunda gigante que pode levar um tapinha em público, afinal “a gente pede por isso”.
Miley Cyrus, caso decida mudar seu comportamento, será novamente acolhida no seio da boa família, ocupará novamente seu lugar na casa grande, pois terá deixado de tentar agir como negra. Já Beyoncé, você e eu não importa como nos comportemos terminamos apenas como o que somos: No final do dia somos apenas mulheres negras.


This is a post that I have been constructing piece by piece. In the middle of my necessity to adapt to my new life and new reality at the university, I started to think about some things.
One of the main subjects on media since I arrived here has been the behavior of the singer Miley Cyrus, who has been in different ways to break up with the image of an eternal Disney star that she used to have while she was performance Hannah Montana, behaving in a way that intents to show her freedom, proclaiming her sexuality and her right in do what she wants to do, what means in the same old way that several Disney stars before that had done before, with a lot of sex, drugs, rock and roll or whatever she sings.
I don’t have anything against her necessity of self- affirmation, even if in my opinion this teenager drama queen is a little bit démodé, I also won’t positioning myself against her right to express her sexuality and freedom and the ways how she wishes to do that. However, what have been bothering me in all this history is the way how to criticize Miley Cyrus’ behavior for her “excessive attitudes” the media is highlighting the fact that she is doing everything because she wants to pass by a Black woman.
Exactly, her behavior which has been considered exaggerate, excessive, considered even obscene would be, according with these critiques because she wants to perform a Black woman.
This affirmation impressed me because even if I have been black my whole life and even I had different life experiences I never did anything related with those things that she supposedly has been done. Although, I also know several Black women, on my family or between my friends that not even really come close to that. So why are they doing this comparison?
At the same time, I started to see several news related with Beyonce’s trip to Brazil, and during the preparation for this awaited show, all the articles published by the Brazilian version of sites like yahoo.com and msn.com were highlighting negative images of the singer, with titles talking about her failures and images as those about her hair grabbing in the ventilator and other images of she falling on the stage. Even if she is one of the greatest singers in the world, she didn’t deserve any positive word from these sites, for them the best thing was to talk about her failure.
However, in the middle of all these news, the image that really shocked me and marked me, it was a scene during one of her shows around the world, when a fan decided to spank her ass while she was dancing on the stage. Even if she was angry whit the fan telling him that he would be removed from the concert if he did that again, that image was extremely aggressive to my eyes.
But you can be wondering: how are the rebel acts of Miley Cyrus and the treatment that was given to Beyonce related?
This is exactly the point. They are related because the racism and the sexism that exist in our society make possible to perpetuate the image of a Black woman as an available body, someone that is over there, available for the touch and ready to have sex in any moment.
Miley Cyrus, can be considered degenerated by the public opinion, but as a white woman, she “never would behavior like this”, so in the sick mentality of the racist and sexist society, she only can be wishing to be Black to behavior herself in this way.
On the other hand, even if Beyconce, can behavior herself as a Diva, and be successful as a powerful woman, people can’t admit her success, it is necessary to reinforce her failure and treat her as that that she really is: only a Black woman.
This relationship between hyper sexuality and the Black woman image is part (according with I have been learning through the thought of writers as Patricia Hill Collins), of the creation of controlled images of Black women which are spread as tools to keep an oppressor and exclusionary system, which make Black women are it main victims.
And this is what makes not only Beyoncé, but also you, and me, or your sisters and your mothers be seen as someone available, as a woman that can be explored emotionally and physically, as a big ass that can be spanked in public, because in the end “we are asking for that”.
Miley Cyrus, in the case that she would decide to change her behavior, she will be again well received in the arms of the good family, she will occupy her place in the Master’s house, because she would stop to try to act as Black. Now, Beyoncé, you and me no matter how we decide to behavior, in the end of the day we finish as that we are: In the end of the day we are only Black women.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Uma diáspora de dores – A Diaspora of pain

A escrita desse post começou há mais de um mês, no dia em que recebi a notícia de que George Zimmerman havia sido inocentado da morte de Trayvon Martin. Naquele mesmo dia, li uma outra notícia de um jovem negro que havia sido torturado por horas no Paraná, por ter sido “confundido” com um assaltante.
As duas histórias não saíram da minha cabeça e me fizeram mais uma vez pensar em como nossas dores e aflições são parecidas apesar de diferentes realidades.
Na mesma época as questões diaspóricas fluíam na minha vida sob diferentes perspectivas, pois ao mesmo tempo em que terminava meu mestrado fui convidada para fazer uma palestra na ONU e a falar sobre racismo e xenofobia no Brasil e na América Latina, comparando como em diferentes lugares da diáspora essas questões sempre afligem a população negra.
E naquele momento escrever sobre isso realmente parecia o melhor tema.
Por diversas razões, o processo de escrita não fluiu, as coisas começaram a ficar corridas e a preparação para essa palestra e para a mudança acabaram fazendo com que eu adiasse a escrita.
Mas esse é um novo tempo.
Para quem não sabe, no início do mês de agosto eu me mudei para Austin, Texas, onde irei iniciar meu doutorado em Estudos Africanos e da Diáspora Africana pela University of Texas. E ao chegar aqui e passar a observar a questão racial nesse país com um olhar de fora, a necessidade desse post voltou a surgir.
O que me fez pensar nisso, é ver o quão parecidas são nossas dores na diáspora, o quanto sofremos as mesmas agressões, mas o quão diferente são nossas reações a estas.
Na última semana, jovens ativistas negros no Brasil saíram as ruas para protestar contra a morte em massa de jovens negros, devido a diferentes formas de violência, em especial aquela praticada pelo Estado.
No último sábado, aqui nos Estados Unidos milhares de pessoas se reuniram em Washington DC, para comemorar os 50 anos do discurso de Martin Luther King, I have a dream e uma das principais causas levantadas durante o evento foi a morte de Trayvon Martin.
Dois eventos semelhantes, infelizmente com realidades tão diferentes. No Brasil país onde 51% da população é negra, as marchas conseguiram reunir apenas algumas centenas de pessoas. Enquanto que nos Estados Unidos, país onde a população negra representa 13%, a marcha reuniu aproximadamente 100 mil pessoas.
Em um primeiro momento isso pode parecer uma questão simples, de falta de comprometimento ou podemos generalizar e dizer que as coisas aqui foram no passado e são até hoje diferentes de lá, mas a questão é muito mais profunda do que isso.
Essa é uma questão intrínseca que envolve temas como a maneira como a colonização se deu nos dois países e o que tem sido chamado de segregação de fato e de direito e outros temas que merecem ser aprofundados em outra postagem.
De diversas maneiras, são essas diferenças, na maneira como a conscientização de nosso povo acontece que faz com que ao andar nas ruas aqui, eu possa observar um senso de irmandade que nunca presenciei no Brasil, apesar de já ser uma ativista há mais de 15 anos.
Um senso de irmandade que faz as pessoas se cumprimentarem nas ruas ainda que não se conheçam, comentarem as últimas notícias relacionadas a população negra, que faz os pastores usarem a luta contra o racismo em seus sermões, que faz com que o motorista do ônibus ou o atendente da farmácia, comecem a falar sobre movimento black power e partido black panthers, apenas por ver meu cabelo natural.
Não quero pensar que esse senso de irmandade não exista no Brasil, mas acredito que ainda está em construção, onde tentamos primeiro descobrir quem somos, para depois tentar unir o que somos individualmente ao que somos como coletivo e isso leva tempo.
Mas então, porque não unir nossas dores? Essas são mais fáceis e mais palpáveis do que a conscientização. A dor do povo preto está aí, estampada há mais de 500 anos, em toda a diáspora e seja aqui nos Estados Unidos ou seja no Brasil, a carne mais barata do mercado ainda é a carne preta, o corpo mais vulnerável e a disposição ainda é o nosso, então talvez possamos partir daí.
Se unirmos nossas dores e aprendermos com as experiências um dos outros talvez possamos encontrar um caminho em comum a seguir que torne nossa jornada mais fácil e nossa vida na diáspora menos dolorosa.
Eu ainda não sei qual é esse caminho, nem acredito que haja uma receita, mas de todo meu coração, procuro ver essa união como uma ponta de esperança na luta contra o racismo.
O que tenho aprendido nesses poucos dias aqui é que não existe racismo pior nem melhor, o que existe é a necessidade de lutar contra esse mal que fere e mata, seja aqui ou seja lá.
Vamos lutar!

I started to write this post around one month ago, in the day that I received the new that George Zimmerman was considered innocent  of Trayvon Martin’s death. At that same day, I read another new about a black youth who was tortured for several hours in the state of Parana, because he was mistaken for a robber.
Both histories weren’t out of my head and they made me wonder how similar are our pain and our afflictions even considering our different realities.
At the same time the diasporic issues flowed in my life under different perspectives, because at the same time that I was finishing my Master course I was invited to speech at United Nations headquarter about racism and xenophobia in Brazil and Latino America, doing a comparison about how even in different places of the diaspora black people are still afflicted by these questions.
And at that moment to write about this sounded as the best subject.
For several reasons, the process to write didn’t happen, and things started to be hard, and with the preparation for the lecture and to moving, I just postponed the writing.
But this is a new time.
For all those who don’t know, at early august I just moved into Austin, Tx, where I’m starting my PHD in African and African Diaspora Studies, by University of Texas and when I arrived here I could start to observe the racial issues in this country, and with a foreign perception the necessity of this post upraised.
What made me think about this was because I realized how similar are our pain in the Diaspora, how we have been suffering to the same kind of aggression, but how different are our reaction to that.
In the past week, some Afro Brazilian young activists went to streets to protest against the massive murdered of black youth, through several violence forms, especially that committed by the State.
Last Saturday, here in the US thousands of people met in Washington DC, to celebrate the 50th anniversary of Dr. King I have a Dream speech and one of the main issues that was approached by the leaders during the event was Trayvon Martin’s death.
Two similar events unfortunately with so different realities, in Brazil, a country with 51% of black population, the marches got to put together only some hundred people. While in the US where the black population represents only 13% the march got around one hundred thousand people.
In a first moment, this can sounds as a simple question, meaning that in Brazil people aren’t committed with the cause or we can generalize and say that things here were in the past and still are totally different from there, however this issue is really deeper than this.
This is an intrinsically question that involves subjects as colonization in both countries, and what we call segregation in fact and in law and other subjects that deserve a deeper look in another post. 
In several ways, these differences in the way that our people awareness happens is what made possible that when I’m walking on streets here, I can observe a brotherhood feeling, that I never felt in Brazil, although there is more than 15 year that I have been an activist.
This brotherhood sense which makes people in the street say hello even they don’t know each other, to talk about the past news regarding the black population, which makes pastors talk about the struggle against racism when they are preaching and that makes the bus driver or the drugstore attendant talk about the Black Power Movement and Black Panther Party only because they are seeing my natural hair.
I don’t want to think that this brotherhood send is inexistent in Brazil, but I prefer to believe that it is still on construction, where we are trying first to discovery who we are and after we can unify who we are as individual to what we are as collective and that takes time.
However, why can’t we join our pain? These are easier to identify and more touchable than awareness. The black people pain is there, stamped in these past 500 years, in the whole Diaspora, no matter if is here in the US or in Brazil, the cheaper meat in the market is still the black meat, the most vulnerable and available body is still ours. So maybe we could start over there.
If we join our pain and learn with our experiences maybe we could find a common way to follow with could allow us to have an easier journey and maybe to help us to have less painful life in the Diaspora.
I still don’t know what is this way, and I also don’t believe that there is a receipt for it, but with all my heart, I look to see this union as a piece of hope in the fight against racism. 
What I have been learning in these few days here is that there isn’t worse or better racism, what there is the necessity to fight against this evil thing that hurt and kill us, no matter if is here or there.
Let us fight!